A paixão segundo GH – Clarice Lispector

Clarice LispectorDepois de despedir a empregada, GH vai fazer uma faxina no quarto de serviço. Mal começa a limpeza, ela se depara com uma barata, tomada de nojo a esmaga na porta. Daí em diante, GH passa a viver todo o livro em função do animal, com a sensação de ter perdido a sua “montagem”, “organização” humana. Isso porque o inseto a pega no meio de uma rotina civilizada e, para ela, degustar aquele interior branco da barata (sim, ela come a barata!) seria a junção do real e divino, uma força se manifestando.

Eu geralmente não escrevo sobre esse tipo de livro. Prefiro sentir, viver, é difícil explicar quando um livro te toca. O livro é todo um questionamento interior do personagem que te leva a um mergulho interior também. Então eu prefiro fazer uma não-resenha.

Clarice usa a barata para representar o medo de encarar o que é preciso ser encarado, o medo de aceitar as dificuldades, os erros, os anseios, as nossas próprias falhas. A vida.

O livro acompanha uma mulher se livrando de suas limitações e questionando toda sua humanização, seu Deus, a vida, o feio e a beleza. Ela fala da desconstrução (ou desorganização), fala dos fragmentos insignificantes que formam o ser insignificante que somos. E ao mesmo tempo que as palavras a afastam de achar sua essência, elas tornam isso possível.

 

É uma metamorfose em que perco tudo o que eu tinha, e o que eu tinha era eu – só tenho o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com os seus planetas e baratas.

 

É um looongo monólogo e é preciso um pouco de paciência. Clarice dá uma enlouquecida em algumas partes ( está na sala e de repente está na Ásia Menor, falando do Saara e do Al Qaeda) e eu, sinceramente, fiquei zonza várias vezes.

Foi um livro que demorei para ler desde que comprei e acho que li num momento certo, em outra época eu teria desistido, assim como desisti (temporariamente) de alguns contos dela (Ovo e a galinha, não desisti de você, amado).

Uma das minhas autoras preferidas e super recomendada ❤

 

A hora de viver é tão infernalmente inexpressiva que é o nada. Aquilo que eu chamava de “nada” era no entanto tão colado a mim que me era…eu? E portanto se tornava invisível como eu me era invisível, e tornava-se o nada.

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Um Comentário

  1. Adorei seu blog!
    Clarice é tão profunda, que realmente acho que não é simplesmente pegar um livro dela para ler e pronto.
    É preciso estar preparado para a viagem interior que ela nos proporciona.
    Já tentei ler alguns que não terminei… de fato não era o momento.
    Beijos

    http://www.meumeiodevaneio.com.br

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