Livros para meninos e livros para meninas? O sexismo nos livros infantis

Aproveitando que amanhã é dia das crianças e por isso as lojas estão cheias de brinquedos, livros e roupas, todos destinados aos pequeninos, todos separados por gênero, “para meninos” e “para meninas”, vamos falar de como o fato de sempre estarmos separando esses gêneros nós nos tornamos nossos piores inimigos quando se trata de ensinar uma criança a gostar de ler (assim como em outras áreas da vida, mas aqui no bloguinho falamos de livros, certo? Certo).

Para os meninos são construídos seus próprios espaços na biblioteca/livraria com HQ, livros sobre esportes e aventuras, como se todos os outros livros fossem para “menininhas”. O que é um argumento falido, já que uma pesquisa mostra que livros infantis tem quase que duas vezes mais protagonistas masculinos do que femininos. Um estudo sobre literatura para crianças, num período de 100 anos, concluiu que:

  • 57% dos livros infantis publicados a cada ano tem protagonistas masculinos contra 31% feminino;
  • Em livros infantis populares com personagens animais, 100% deles são masculinos, mas só 33% tem personagens femininos;
  • O número de livros com personagem masculino no título é de 36,5% contra 17,5% de personagem feminino.

Não é só a quantidade que chama a atenção, mas a qualidade também. Personagens femininos são constantemente marginalizadas e estereotipadas (já falamos sobre isso aqui, lembra?). Comprando essas ideias sobre garotos e os livros, nós também tomamos uma postura sobre meninas e os livros. As meninas desde sempre são relacionadas a livros, elas não precisam ser encorajadas, porque ler faz parte de ser uma menina. Suas vidas são pequenas e internas, seus interesses não são esportes ou quadrinhos.

Chamar um livro de “menininha” torna-se insulto, pessoas relacionam esse termo com capas rosas, vestidos, maquiagem, sapatos e um romance fácil de ser lido, totalmente ausente de uma literatura mais profunda. Mas quem disse que esses elementos são ruins? Quando julgamos um livro “menininha” demais como superficial, nós passamos a julgar os leitores. Nós praticamente dizemos que seus interesses e gostos não importam. E porque esses leitores são frequentemente meninas, nós aumentamos o julgamento, dizendo que ela e seus desejos são menores ainda.

livro para meninas

Como dito anteriormente, aqueles que dizem que existem muitos livros para “menininhas” erram rude. Pois desde os desenhos animados até o ensino fundamental e médio, quando essas crianças leem clássicos, eles são sobre homens, escritos por homens numa visão totalmente masculina, basta ver na lista de best-sellers do The New York Time. Então todo livro que é escrito por uma autora mulher e sobre uma líder feminina é chamado de chick lit. Separando assim tudo que é “menininha”, pois não queremos que nossos meninos sejam “menininhas”, né?

E isso vai além de gênero também, ainda é real o preconceito racial e étnico. A Cooperative Children’s Book Center at the University of Wisconsin-Madison School of Education conduziu uma pesquisa sobre todos os livros infantis e infanto-juvenis publicados desde 1985. Em 2012, quase 5000 livros foram totalizados e só 3,3% com afro-americanos e 1,5% é latino.

O problema não são os meninos brancos, mas a cultura que os favorecem desproporcionalmente. Meninos não são responsáveis pelas injustiças da mídia e seus efeitos, mas pais e educadores sim.

Não é uma questão do gênero em si, mas o senso do “diferente” quando meninos são ensinados a serem “verdadeiros meninos” e desprezam livros sobre meninas.

Esse desprezo pelo “diferente” é que serve como base para a desigualdade. Cor da pele e gênero servindo como um objeto forte e publicitário para causar interesse e empatia. Não muito tempo atrás era socialmente aceito dizer “Não quero ler, porque esse livro é sobre pessoas negras”, é aceitável hoje que um menino fale que não quer ler porque é um livro de meninas.

Quanto mais expormos os leitores jovens a grande variedade de possibilidades, a como os livros podem crescer em suas mentes, mais passos nós damos no combate a diferença de gênero no mundo literário. Crianças precisam ser ensinadas a reconhecer sexismo e preconceito, livros infantis são uma ótima ferramenta para começar.

igualdade generos

Você ainda pode ler sobre essa separação de gêneros em objetos infantis em outros textos que usei como referência: O sexo dos Brinquedos, é ótimo e fala da diferença de brinquedos masculinos e femininos hoje e Boys V Girls: It’s the battle of the bookworms! (em inglês, desculpas), de um autor renomeado falando sobre como escrever para meninas e para meninos (blé!) e o Igualdade de gêneros fala de dicas para combater a desigualdade desde cedo.

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  1. Concordo que não existe essa de “coisa de menino” e “coisa de menina”… mas entendo que existem diferenças tendenciais no desenvolvimento de cada gênero e o sistema de ensino deveria estar mais atento às demandas individuais… O ideal seria expor a todas as crianças, igualmente, possibilidades de entretenimento diversificadas e equilibradas… Quando vejo estatísticas que mostram meninas não se interessando por matemática, não entendo que seja algo da natureza do gênero, mas que a matemática não lhes foi apresentada de forma devidamente interessante… O mesmo acontece quando vejo meninos não se interessando por leitura e escrevendo muito mal… provavelmente os livros apresentados não lhes eram interessantes (que independente do perfil do protagonista, a tendência é se interessarem por leituras mais práticas ou técnicas… às vezes até bula de remédio poderia ter tido um resultado melhor…), assim como temas de redação do tipo “Como foram suas férias” !!! Que tendem a ser mais atraentes para meninas (que tendem a ter mais facilidade de expressar suas emoções – vide a cultura do “diário”) do que para meninos…

  2. Pingback: Infância dividida em “rosa” e “azul”? | Minuto Criança - Um cantinho exclusivo para diversos assuntos relacionados à pais e filhos.

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  5. Concordo plenamente com você. Se não houvesse tanta separação feminino/masculino na infância, consequentemente as crianças cresceriam mais maduras e evitaria muitos futuros preconceitos. Quando digo preconceito não é somente do gênero literário, e sim preconceito por exemplo, de um menino ler chick-lit’s ou uma menina ler livros que supostamente são feito para meninos, como biografias de jogadores ou outros temas em geral.
    Adorei o post, adorei o blog! Voltarei aqui sempre que der!

    Abraços
    http://www.booksever.blogspot.com

  6. Olá!
    Nossa, eu adorei o post!
    Realmente muito interessante. E esse preconceito tem que ser corrigido desde cedo mesmo, porque é quando somos mais influenciados.
    Já ouvi muitos garotos dizendo que não gostam de ler porque é coisa de menininha ou livro de menininha, e boa parte dessa culpa também são de alguns pais que não incentivam a leitura.

    Bjs ;*
    http://viciosemtres.blogspot.com/

  7. Você explicou as coisas perfeitamente bem!
    O preconceito se inicia na infância, e o sexismo nos livros infantis existem.
    Ótimo post!
    Muito bem elaborado!
    Beijos!
    http://btocadoslivrom.blogspot.com.br/

  8. Caramba! Amei o seu post!
    Nunca havia parado para analisar essa questão racionalmente, e concordo muito com você.
    Acho que todas as questões de preconceitos começam na infância, de uma forma ou de outra.
    Beijos

  9. Muito bom texto. Minha monografia foi sobre questões de gênero na educação infantil e pude perceber isso nos brinquedos e no discurso das crianças e também dos professores. Muitíssimo interessante.
    Percebi isso agora com mais intensidade porque estou escrevendo livros. Percebi que se eu escrever uma história em que a protagonista é uma menina e tem brinquedos “de menina” os meninos não lerão. Mas as meninas acabam lendo os livros “de menino”. No teatro isso também acontece e muitas horas eu acho isso péssimo. Fechamos questões sobre o que é aceitável para meninos e meninas e acabamos mesmo é sendo preconceituosos.

    Se quiser dar uma olhada no livro que estou lançando (comprar, divulgar – ou as duas coisas), eu agradeço! https://clubedeautores.com.br/book/152668–Mamae_Gente_existe

    Abraços,
    Carla Luz

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