O Livro do Amor, por Regina Navarro Lins

Aos 11 ou 12 anos, eu já escrevia em diários o quanto gostaria de ter alguém que gostasse de mim e me pegasse pela mão para tomar um sorvete. Tive minhas primeiras paixonites unilaterais já no ginásio. Aos 14 anos, eu já tinha formada na cabeça a ideia de que eu deveria ter um namorado, ao menos um paquera, alguém que me correspondesse. Isso nunca aconteceu. Eu era apaixonada pelo vizinho da rua de trás, mais velho, que já estava no ensino médio. Eu esperava a hora que ele saísse da escola, a mesma que a minha, e o perseguia, chegava em casa e ligava para ele (aproveitei o fato de que nossas famílias eram amigas e consegui o telefone). Eu era uma stalker assustadora. Depois de tempos de decepção, ele ter ficado com uma amiga, recíproca zero e um fora, eu parti para outro.

Meu primeiro beijo foi na mesma época, no ginásio, com uma das paixões que já era passado, mas era o que tinha.

No ensino médio, minha paixãozinha era um amigo, que eu sonhava romanticamente, mas nunca me deu bola. Também tinha um amigo que era paixão não romântica e eu nem ninguém entendíamos na época.

Ao longo dos anos, sofri muito por não ter um par, por ser sempre a amiga-ponte, a amiga-vela, a amiga-sempre-companhia. A partir dos 18, na faculdade, fui uma pessoa diferente, percebi que não precisava ser dupla, ser dois em um e que eu me bastava. Me assumi ao poucos e, sem notar, me assumi também dona do meu corpo e ficava com quem eu queria, mas meu coração batia forte por um. Sentia todos os sintomas da paixão: as pernas tremiam, negava para todos na maior cara de pau, borboletas no estômago, vários posts no blog da época sobre ele, sonhava com um beijo. Inevitavelmente nos tornamos amigos e a situação piorou. Um dia resolvi me declarar e descobri que além de gay, ele tinha um namorado. Hoje, depois de 5 anos, nossa amizade cresceu muito, assim como meu amor.

Essa síndrome do amor que vivemos, principalmente as meninas/mulheres é porque desde sempre somos muito bombardeados através dos poetas clássicos, grandes escritores, autores de novelas e diretores de Hollywood pelo mito da paixão. Essa é a fonte de todo meu sofrimento na vida sentimental. No jardim de infância já temos um parzinho formados pelos adultos, sendo que nem pensamos nisso ainda; na adolescência exigem a nós mulheres postura de alguém “boa para casar” e que segurem suas cabritas, pois os bodes estão soltos; nos dizem praticamente que a coisa mais maligna de uma mulher é sua sexualidade, pois desde jovens nos julgam por usar roupa curta e ficar com mais de um cara. Quase uma caça as bruxas na época da inquisão.

Nada de assustador, pois sempre fomos rodeados pelo mito do amor romântico e cortês, que assim como a repulsão sexual vai se instalando e condiciona o surgimento de valores e regras para controlar o exercício da sexualidade, portanto tudo isso passa a ser visto como natural, fazendo parte da vida. Então quem não o tem ou não o deseja, não sabe o que quer ou não encontrou alguém certo ainda. Não é válido achar vários “alguéns” certos, amores diferentes, amores para não casar, para ser amigo, para não transar.

O_LIVRO_DO_AMOR__VOL_1

Capa do livro

Venho me questionando muito sobre isso porque encontrei meu “alguém certo”, porém não do jeito romântico idealizado por todo mundo. Tenho lido muito na internet e me deparei com a Regina Navarro Lins, psicóloga, e li O Livro do amor, escrito por ela. Somente li o volume 1 e pretendo começar o segundo prontamente, pois me esclareceu muito. O primeiro volume trata do amor e sexo da Pré-História a Renascença, vemos o quanto o amor e o sexo custavam para a mulher – que sofre do machismo desde que os antigos descobriram que não éramos deusas, pois não éramos as únicas responsáveis pela reprodução – os gregos e a homossexualidade, a criação do cristianismo e o amor somente a Deus, a mudança do conceito de casamento, amor e sexo desde então, a criação de várias religiões, auge de poetas, escritores, deuses e reis. O apanhado histórico é impressionante e percebemos como naturalmente, ou não, nossa cultura atual foi moldada desde muito antes. Temos assim como equiparar tudo que vivemos, sentimos e julgamos. Podemos ver que a monogamia é um padrão de relacionamento que nunca deu certo e o quanto a ideia de que a mulher é um sexo secundário é tão ultrapassado.

A história e papel da mulher são tão fortes ao longo das épocas, que é impossível não amadurecer meu feminismo. Era em “nome do amor” (ao homem ou a Deus) que as mulheres apanhavam, deveriam ser submissas e invisíveis na sexualidade e na maternidade; que deveriam ter postura, mas ao mesmo tempo não tinham direito a educação, muito menos a um posto de liderança.

Em certas épocas o amor e o sexo eram totalmente independentes, casava-se para procriar, muitas vezes sem afeição nenhuma pelo outro, e divertia-se na rua. Em outras foi permitido o amor no matrimônio, mesmo com certo pudor. E foi durante todas essas épocas, principalmente na Renascença, que nossos relacionamentos atuais foram ditados. Tem-se que casar, ser fiel, não provocar ciúme, procriar e ser feliz para sempre dentro dos padrões. Não é permitido amar mais de um, amar diferente, separar sexo do amor e amor do sexo, não casar é feio para o homem, para a mulher é pior ainda. Ainda separamos nós mulheres em Eva e Maria, em feiticeira e santa, ruim e boa para casar. Julgamos relacionamentos alheios, nunca levamos em consideração qual o melhor jeito que a pessoa quer viver.

“O sexo sempre teve destaque na história da humanidade. Dependendo da época e do lugar, foi glorificado como símbolo de fertilidade e riqueza ou condenado como pecado.”

Hoje sigo me esclarecendo e buscando informações como forma de me trazer conforto para viver meu amor sem sexo e meu sexo sem amor. Sou super a favor dos amores livres, do jeito que queremos, sem amarras, sem propriedade. Entendo o que eu sentia pelo meu amigo, que ninguém entendia, entendo o que sinto hoje pelo meu melhor amigo e amor (da vida até agora!) e me permito viver minhas paixõezinhas tentando não me sentir dona de alguém. Busco através de cada decepção lá atrás, ainda na infância e adolescência, comparada ao que sei hoje, me sentir melhor comigo mesma e ser autônoma, não depender de reciprocidade nenhuma, sempre introduzindo novos significados ao amor.

“Se conseguirmos viver num mundo melhor certamente perceberemos os mitos atuais, científicos e religiosos com assombro. Certamente nos surpreenderemos com o fato de a história mais famosa da origem humana, a história de Adão e Eva, no gênese, nada a dizer de positivo em relação ao sexo, ao amor e ao prazer, de apresentar a busca humana de uma consciência superior como maldição, e não uma benção, e de sequer mencionar a admiração e reverência que experimentamos quando contemplamos e tocamos alguém que amamos.” Riane Eusel.

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Para saber mais sobre sexo/amor livre/monogamia:

Dentro desses links ainda tem mais links 😉

 

Obs.: São textos informativos, qualquer um é livre para optar pela sua forma de amar e se relacionar, só acho válico o esclarecimento e a não imposição.

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  1. Oi.

    Adorei o post e falar de amor nem é tão simples. ´Nós mulheres sentimos mais eu acredito. rs Homens são mais práticos.

    Beijos
    http://fernandabizerra.blogspot.com.br/

  2. Acho a questão do AMOR muito profunda e difícil de avaliar. Como ou quanto se pode amar uma pessoa?
    Acho que as mulheres em especial realmente esperam o amor perfeito e tem mais necessidades afetivas que os homens.
    Gostei muito do post 🙂

    Beijos

    Meu Meio Devaneio

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