Personagens e caráter

Eu adoro um vilão. Seja em filme, novelas, séries de TV ou em livros. Gosto do jeito descolado, a atitude ‘não ligo para o que você pensa, só para o meu prazer” e a impulsividade, gosto até das maldades, porque nada mais excitante do que ver gente fazendo o que quer. Mas peraí, eu aceitaria isso na vida real?

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Por exemplo, participo de alguns grupos literários no facebook e vejo tantas meninas suspirando pelo Travis, de Belo Desastre, e fico indignada porque ele além de possessivo e manipulador, tem sérios problemas familiares e com agressividade. Ok, ele deveria ser o mocinho da história, mas eu não o vejo assim justamente por esses problemas, mas a autora colocou esse amor enlouquecido e conturbado, as meninas vão logo se encantando. Eu não aceitaria um cara assim na minha vida.

Porém, lembro do meu sentimento de culpa ao ler e lembrar de Lolita, do Vladmir Nabokov. Humbert Humbert é um pedófilo que, enquanto estava na cadeia, conta sua história de amor por Lolita, uma ninfeta. Todos sentem repulsa e eu? Acho uma fofura. A escrita do autor me fez achar o amor de H.H. aceitável, pois eu achei sincero. Mas a ética entra e me freia um pouquinho. Também posso citar a escrotisse do Mr. Darcy, em Orgulho e Preconceito, por quem não nego minha paixão; e até Sr Gray, porque não? Aquele homem me fez achar, no início, que todo aquele romantismo e “provas de amor” valiam sua possessividade. Vou nem citar Edward e Bella, porque aquilo não é amor, é dependência.

Geralmente são em histórias de amor que esses casos acontecem e eu às vezes fico do lado do babaca que quer separar os protagonistas babões. Pois são os protagonistas babões que fazem eu me afastar de romances mais clichês. Porém, se os livros envolvem épocas antigas, orgulho, distúrbios, dinheiro, eu posso até relevar e dar uma suspirada.

Se eu não gosto de personagens fofos clichês, eu me afasto deste tipo de leitura e, se eu implico com um cantor/cantora, raramente escutarei alguma produção sua. E quando um autor é mau caráter? Agora pouco tivemos a notícia que o Woody Allen molestava a filha quando esta tinha 7 anos de idade. Diante desses casos eu me pergunto: posso não gostar da pessoa, mas gostar de seus filmes? Posso odiar o autor e amar seus livros? Sua música?

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É só pesquisar por aí que nos deparamos com notícias de que o autor de Matilda, Roald Dahl, apoiava Hitler, E o vento levou carrega um racismo velado, J.D Salinger, autor de Apanhador do Campo de Centeio se relacionava com adolescentes, Orson Scott tem uma longa história com a homofobia… São inúmeros casos que vão muito além de SÓ páginas de livros ou SÓ personagens, porque lendo emprestado ou comprando o livro, é um certo apoio dado a algo ou alguém que você não concorda.

Porém, ler algo de alguém não quer dizer que este é o meu voto para essa pessoa como ser humano. E a recompensa de ler é o desafio aos meus pontos de vista ou minha filosofia de vida, coisas que vão além de minha zona de conforto. Isso é o que praticamente me atrai em um livro, pois meus heróis são anti-heróis com e por motivos ambivalentes e corações sombrios.

Portanto, ler livros de pessoas que eu certamente discordo me ajudou a aprender a examinar minhas opiniões de vários ângulos e ver se elas ainda eram as mesmas. Assim como me ajudou a perceber muitos preconceitos velados –homofobia, racismo, machismo!- que me passavam despercebidos. Por isso que hoje me afasto de dramas com personagens femininos fracos e histórias de amor bobinhas, em muitos casos, pois isso não me representa e já li demais. Mas muitas vezes prefiro saber do que estou sendo contra do que simplesmente fugir do assunto. Isso grandifica e me faz evoluir.

E você, se sente mal quando o vilão ou o autor é mau caráter?

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  1. Ótima reflexão! Eu,geralmente, nunca gosto dos vilões porque ainda estou em uma fase que as histórias clichês são as minhas favoritas e para mim os vilões raramente possuem características que me fazem amá-los. No entanto, nunca parei para pensar sobre como a vida pessoal do autor afeta o que estou lendo, se tal autor não é “bom” na vida real eu não deveria ler sua obra… Você me fez começar a refletir sobre isso. Quanto ao Travis eu o amo e odeio ao mesmo tempo… Também não gostaria de alguém como ele em minha vida, mas ele é o tipo de personagem que você entende o porque de ser assim, mesmo que isso não justifique tal jeito.
    Beijos 🙂

  2. Gostei muito do seu texto. Bem desenvolvido.
    Eu gostei de Lolita e você é a primeira pessoa que encontro que não sente aversão pelo H.H. Você pensa como eu.
    Realmente é complicado essa situação de gostarmos tanto de uma obra e depois descobrirmos intenções veladas por conta do autor ou até mesmo uma falha em seu caráter, mas costumo acreditar que deixar ler/assistir algo de alguém que não é bom como pessoa, não vai mudar o fato da obra ser boa. Entende?

  3. Lucas

    Acho que você abordou muito bem esse conflito. Nem tudo que gostamos nos fictício gostaríamos perto de nós. Mas, isso não quer dizer que sejamos seguidores de seus autores ou faça que isso seja da nossa personalidade. Sou daqueles que acreditam que os fins não justificam os meios. Posso gostar de tal livro ou música, sem cultuar o modo de vida de seus autores.

    Lucas – Carpe Liber
    http://livrosecontos.blogspot.com.br/

  4. Nossa! Adorei muito seu post!
    Eu faço mea culpa: amo um vilão! Sou apaixonada pelo Mr. Darcy, Heathcliff, com toda aquela maldade incutida no seu caráter também me fascina.
    Sou das que suspira pelo Travis Maddox também hahaha
    Mas amei o texto, de verdade…. Concordo que o que lemos não necessariamente define o nosso caráter, mas nos faz crescer.
    Beijos

    Meu Meio Devaneio

  5. Adorei sua reflexão!
    Isso é muito engraçado mesmo, muitas vezes nos pegamos torcendo pelo “vilão” da história, seja em livros ou filmes, porque há toda uma construção do personagem, uma história que nos faz entender o porquê de ele agir de determinada forma, quando, na vida real, como tu mesmo disseste, queremos esse tipo de gente bem longe de nós!

    Beijos,
    http://patriciapinheirotextos.blogspot.com.br/

  6. Interessantissima sua abordagem… Poxa, afinal, alem de gostarmos e personagens que nao deveriamos gostar – ppor mais q eu realmente ache que os vilões sejam os mais completos e humanos dos personagens – , ainda assim temos nossos ídolos… E como vc vai dizer “Nossa, eu adoooro o Woody Allen!”…. So que nao hahahaa! A reflexão é mto valida, analisar esse lado de nossos personagens e ídolos preferidos faz-nos colocá-los no seu lugar, como humanos, e não endeusá-los =]

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