A invenção da asas, por Sue Monk Kidd

Se você não sabe para onde está indo, deve procurar saber de onde veio.

Eu sempre me imagino em séculos passados, principalmente na época da escravidão. Sempre me imagino mulher e escrava. Meu coração dói. Porque mulher sofria, mulher preta sofria mais ainda.

Nas reuniões da minha família (de negros, oi), é sempre comum brincarmos sobre isso, minha mãe costuma dizer que as negras de canela grossa que ficavam em casa com a sinhá, uma forma de zoar minhas tias de canela fina. É engraçadinho na hora, mas é desesperador saber que achavam (acham) que uma pessoa tem menos valor que outra, que alguém pode ser dono de outro por uma questão racial.

Por lei, um escravo equivalia a três quintos de uma pessoa. Ocorreu a mim que o que eu acabava de sugerir se assemelharia a proclamar vegetais iguais a animais, animais iguais a humanos, mulheres iguais a homens, homens iguais a anjos. Eu estava virando a ordem da criação de ponta-cabeça.

– Uma das cenas que Sarah propõe a igualdade racial, não só a abolição.

A invenção das asas nos conta a história, baseada em fatos reais, de duas irmãs Grimké, pertencentes a uma família poderosa e abastada de Charleston, da Carolina do Sul, nos EUA. Sarah e Angelina Grimké foram as primeiras agentes femininas abolicionistas e umas das primeiras entre as mais importantes pensadoras feministas americanas. Poucas mulheres foram tão “malcomportadas” quanto essas duas, no século XIX. Passaram por uma longa e dolorosa metamorfose, separando-se da família, da religião, da terra natal e das tradições, tornando-se exiladas e, por fim, párias, na própria cidade.

Capa do livro, lançado pela Editora Paralela

Capa do livro, lançado pela Editora Paralela

Elas tinham como objetivo não só a emancipação imediata dos escravos, mas também a igualdade racial, uma ideia radical até mesmo para os abolicionistas. Essa luta se misturou à luta pelo direito das mulheres.

Quando criança, Sarah recebe uma jovem escrava chamada Hetty  “Encrenca” para ser sua dama de companhia. Desde então, Sarah se opõe à escravidão, tenta dar alforria à Hetty, mas não consegue. Mesmo assim se tornam próximas e uma das formas de liberdade que Sarah consegue dar a Encrenca é ensinando-a a ler, coisa por qual elas foram severamente punidas.

Foi muito tocante para mim ver capítulos alternados de duas visões da história, a da mulher negra e da mulher branca, ambas com suas dificuldades. Porque praticamente todas as histórias de escravidão que conhecemos vêm somente daqueles que a implementaram, infligiram e com muito custo a abandonaram.

“Foi uma grande revelação para mim”, lhe escrevi, “que a abolição seja diferente do desejo de igualdade racial. O preconceito de cor é a base de tudo. Se não for consertado, as dificuldades dos negros continuarão muito além da abolição”. -Sarah

Encrenca aprende o que é ser uma escrava, apanhar por não obedecer, ter um preço, o que é perder alguém por morte ou por venda; tem a consciência da injustiça, do próprio cativeiro e do sistema que não faz de ninguém uma pessoa livre, e que as mulheres negras são as que mais sofrem nessa hierarquia. É emocionante a história criada para ela e sua mamã “que não pertence a ninguém a não ser ela mesma”. Nessas cenas de Encrenca e Charlotte, sua mamã, assim como as de Sarah e Encrenca, transparece a doçura que a escravidão tenta apagar do ser humano.

Eu esperava com essa história aprender mais sobre a minha própria, mas só o que fiz foi reconhecer, a mim, minha mãe, minhas tias, minhas irmãs de cor; cenas do dia-a-dia, de novela, de piadinha de humorista sem graça.

Sue Monk Kidd conseguiu, pelo pouco que eu sei de história, representar uma série de relatos, partindo da perspectiva da vitima, de opressão e subserviência da mulher preta e da mulher em geral.

A cruzada pública das duas irmãs Grimké, em meados de 1800, foi repleta de ataques, censura, hostilidade e violência por falarem em público como fizeram. “Elas balançaram, dobraram e, por fim, quebraram a barreira de gênero que negava às mulheres americanas uma voz e uma plataforma nas esferas políticas e sociais.”

Agora, senhores, pedimos que tirem os pés de cima de nossos pescoços.

Muito feliz por ter adicionado mais um pouquinho do passado -nem tão passado- na minha história. Achei bem representado por quem foi e adorei saber da ampla pesquisa feita, da ideia e da importância dada.

Não é preciso ir muito longe para vermos o problema, não é? Numa das semanas que passaram, tivemos o caso do Tinga, jogador do cruzeiro, que sofreu racismo no Peru. É mais uma forma de ver que só nos foi dada a migalha da liberdade e não a igualdade. É com exemplo de humorista oferecendo banana para um negro, sons de macaco assim que um negro toca na bola num campo de futebol -o que parecia ser um dos únicos lugares em que era permitido a ascenção de um negro- , pessoas contra cotas raciais, contra “rolezinhos”, chacinas em favela, mulheres estupradas e ditas como culpadas, mulheres recebendo menos que homens, ocupando lares e não posições de poder, e muitos outros casos, que vemos que o passado não está tão longe.

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  1. Pingback: |Novembro Negro| Ficção x realidade | Livro do dia

  2. Sabrina Amâncio

    Estou lendo o livro e estou amando *-*
    Fiquei feliz ao ler a resenha e ver que fiz uma otima escolha, eu e este livro foi amor a primeira vista, me apaixonei só de olhar a capa!

  3. Thamiris Alves

    Já tinha visto a sinopse do livro, agora fiquei com muit vontade de ler.
    Ótima resenha, gostaria de fazer uma parceria entre nossos blog, o que acha?
    O meu também é literário: http://euliouvouler.wordpress.com/
    beijos

  4. Amei tua resenha! Ainda não conhecia este livro e sua resenha me deixou com vontade de ler. Gosto de livros assim, que ao mesmo tempo nos fazem refletir – quase todos fazem, mas alguns temas, como esse, fazem ainda mais -. Enfim, foi pra minha ista de desejados!
    Beijos *-*

    http://parisnaestante.wordpress.com/

  5. Eu solicitei esse livro a editora e não vejo a hora de receber.
    Gostei muito da proposta, um assunto que por mais que seja discutido e narrado em histórias não se torna cansativo, e sempre nos trazem uma informação a mais.
    Os quotes selecionados são instigantes.

    Até mais.
    http://www.leiturasdapaty.com.br/2014/03/essa-semana-8.html

  6. Não conhecia, mas me deu vontade de ler. Sou curiosa por temas assim. Além disso, cansei de livros bobinhos ~~
    sete-viidas.blogspot.com

  7. Que lindo!! Não conhecia o livro, mas só pela sua resenha já me apaixonei – e me emocionei.
    Ainda mais sabendo que é uma história real, e tratando de um tema tão triste.
    Beijos

    Meu Meio Devaneio

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