|Novembro negro| Kindred, por Octavia E. Butler

Octavia Butler foi uma escritora afro-americana, consagrada por seus livros de ficção científica feminista e por inserir a questão da diferença e do racismo em suas histórias. Fiquei sabendo da autora por um amigo e já amei assim que vi uns textos sobre ela.
Esse livro não foi publicado no Brasil ainda, mas o ebook estava 4,90 dilmas na Amazon BR (infelizmente já voltou para o valor normal) e havia um conto BloodChild de graça. Se você sabe inglês, vale a pena.

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Capa do livro


Sinopse: Dana, uma mulher negra moderna, que vive nos anos 70, está comemorando seu aniversário de 26 anos com seu marido, Kevin, quando é “transportada” abruptamente da Califórnia para um estado escravista dos EUA, no século XIX. Rufus, eu antepassado e filho de um fazendeiro branco, está se afogando e Dana o salva. Ela viaja repetidamente através do tempo para épocas da escravidão que cada vez se torna mais perigosa.


Já li inúmeros livros sobre escravidão (inclusive, acho que todos passados nos EUA. Curioso), mas cada um deles me trouxe uma forma de ver a situação. Nesse livro vemos uma pessoa, assim como em Doze Anos de Escravidão, do Solomon Northup, livre e obrigada a se render a escravidão por estar no lugar errado na hora errada.

Misturando ficção científica com um fato histórico, temos um livro que envolve e faz você querer terminar aquilo logo para saber porque, como, onde, quando. Porém nem todas as respostas são dadas.
Como essa viagem no tempo acontece? Não é respondido, a autora apenas descreve como Dana se sente a cada passagem e que ela é capaz de levar objetos ou pessoas que estiver em contato. Onde é possível que a viagem aconteça, há um “portal”, só acontece na casa dela mesmo, ela poderia estar dirigindo e sumir do nada? Outra incógnita. Só temos uma Dana com medo do que pode acontecer caso ela saia de casa, então a mesma fica trancafiada esperando o próximo momento. Porque e quando? Rufus é um tataratatarataravô dela, portanto toda vez que a vida dele corre risco, e consequentemente a dela, Dana aparece para salvá-lo e a si mesmo. O retorno para o tempo presente se dá quando a vida dela está em perigo de novo, ou seja, quando ela toma muitas chicotadas, quase toma um tiro e outras situações. Esse motivo é quase implícito e bem fácil de descobrir, na verdade, no inicio e na primeira viagem no tempo, Dana e o marido já descobrem subitamente tudo.

Esse foi um fator para eu ter ficado um pouco chateada com o final e com o desenvolvimento da história, uma explicação. Mas a autora não pecou quando descreveu toda a situação vivida pelos negros em 1816 e, como Dana, negra livre vivendo mais de 150 anos depois, diverge da situação e da postura dos negros escravos. Umas passagens maravilhosas me levaram a querer fazer marcação o tempo todo. Dana era considerada negra abusada, metida a inteligente, desaforada. Não muito diferente quando nós negros, hoje em dia, queremos tomar frente ou nos emponderar e impor em relação a funções de trabalho e beleza, por exemplo, né? Kevin, o marido, é branco, então imagina a crise quando os dois voltam ao passado juntos e dizem que são casados. Brancos não casam com negros!

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“Era perigoso educar escravos, eles alertavam. Educação deixava os negros insatisfeitos com a escravidão. Ela não funcionava no trabalho braçal.” (Tradução livre)

Coisa muito recorrente no livro eram as críticas e brigas entre os próprios escravos, um achar que o outro se vendeu fácil para o senhor branco, virando o “negro da casa grande”, sendo que geralmente é só é uma questão de sobrevivência e segurança. A relação entre os personagens é muito boa, as conversas, os questionamentos, o sofrimento quando um parente e um filho recém nascido é vendido. Muita tristeza.

Outro fator decepcionante: Rufus. Garoto chato, mimado, insuportável. Louco e bipolar, ele toma decisões achando que está fazendo o bem, tanto para Dana, quanto para Alice, a escrava por quem é apaixonado. Ele, ao mesmo tempo que ama, acha super razoável infligir sofrimento e dor, pois no fundo é mais um sinhôzinho dono delas.

Me prendeu, o plot é ótimo, assim como a escrita da autora. Mas pra mim faltaram algumas explicações. o foco do livro pode até ter sido os relatos da forma decadente que os negros/escravos viviam no século XIX, porém acho que uma pessoa que viaja no tempo deveria ter a situação explicada, ainda mais a autora sendo classificada como autora de ficção científica. Leitura mais que válida, mesmo com a minha dor permanente no coração, porque o maior pavor da minha vida é saber que eu seria escrava numa época não tão muito distante. Não possuir liberdade é desesperador. Ainda bem que não é possível que essa viagem no tempo ocorra. Ou é?!


Kindred – Octavia E. Butler
Ano: 2014 / Páginas: 304
Idioma: inglês
Editora: Headline


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  5. Enzo

    Oi, Beatriz, tudo bem?
    Um amigo veio para o Brasil esse mês e perguntou se eu queria alguma coisa lá dos USA: pedi alguns livros e ele me trouxe dois: The Handmaid´s Tale (da Atwood), e Kindred. Pesquisando no google textos em português sobre Kindred, caí no skoob e na sua resenha, que me trouxe para cá.
    Confesso que ando com preguiça para ler textos longos na internet, mas adorei essa cauda de pavão que foi o seu Novembro Negro, e suas leituras em geral. Que leituras invejáveis! Esse ano reli “Amada”, da Toni Morrison. Amo. Já leu? Ela tem um outro livro extraordinário chamado “Playing in the dark”, sobre a construção do personagem negro na literatura estadunidense. Genial também. E “A Canção de Solomon”, maravilhoso.
    Estou esperando The Female Man, da Joanna Russ. Deve chegar esse mês ainda. Já ouviu falar?
    Você já deve ter ouvido falar da editora Persephone Books, de Londres, não? Acho que tem tudo a ver com a proposta do seu blog… Eu encomendei “Someone at a Distance”, da Dorothy Whipple, mas extraviou, já faz sete meses. Aí fiquei um pouco desgostoso e não sei quando vou tentar de novo.
    É isso… ótimas leituras sempre pra você!

    • Uau, Enzo. Não conheço essas autoras, mas morro de vontade de ler Toni Morrison. As dicas estão anotada e fixadas na parede haha. Adorei o comentário e você ter gostado do blog ❤ Obrigada.

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