|Novembro Negro| Ficção x realidade

Para mim, literatura é mais do que distração, é uma forma de representação do mundo em que vivemos. O autor pode sim querer apenas narrar uma história, mas existem várias formas de isso acontecer e, segundo Regina Dalcastagnè, há 80% de chance da história ser branca, homem e heterossexual. Com isso, pensei em fazer um post sobre o negro parodiado na literatura, aquele estereotipado e que reflete muito o racismo estruturado da sociedade. Daí percebi que eu não li tantos livros desse tipo para poder falar sobre, e fiquei feliz. A partir da minha lista inicial de livros a ler em novembro e no meu histórico de leituras, vi que os livros que eu escolho tem sempre o negro como sujeito, contando sua própria história, mesmo que seja entre as frestas da cozinha do patrão, e está sempre presente e mostrando sua perspectiva da História.

É assim que em Rio Negro, 50, de Nei Lopes (2015), vemos passar a vida de múltiplos personagens negros sagazes, intelectuais e com perspectiva bem-humorada que faz o leitor revisitar o Rio de Janeiro da década de 50.  Temos, nesse livro, como plano de fundo um caso de perseguição, morte e/ou desaparecimento sem nenhuma razão e explicação de um negro na rua. A situação as vezes é tratada como mais um causo da cidade, mas vemos que isso acontece todos os dias na nossa realidade. Amarildos surgem todos os dias para nos lembrar que se você for considerado invisível na sociedade, nada será feito por você.

Não por acaso o leitor tem a impressão de que as discussões dos personagens do livro são ouvidas nos bares e cafés atualmente. Nei Lopes coloca um discurso atual na boca de seus personagens de época para mostrar que os problemas que negro brasileiro enfrenta hoje são os mesmos enfrentados por gerações anteriores e o quão pouco avançamos no combate ao preconceito e à desigualdade.

“Abolição de fachada! Onde já se viu libertação sem condição econômica, sem previdência?”

Os frequentadores do Rio Negro também reclamam das esquetes de humor e piadas racistas veiculadas pela Rádio Nacional:
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“E você já reparou que, no rádio, artista preto dificilmente tem nome? Não tem nome, é só apelido: Blecaute, Caboré, Chocolate, Jamelão, Gasolina, Pato Preto, Risadinha…”.
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Ainda sobre a credibilidade e importância do homem negro na sociedade, temos em O sol é para todos, da Harper Lee, todo o peso da questão racial na acusação de um crime supostamente cometido por um homem. O negro é rechaçado e estigmatizado por um histórico onde ele era considerado inferior, perigoso e incapaz de agir inteligentemente que perdura até hoje.
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[…]Em nossos tribunais, quando se trata da palavra de um branco contra a de um negro, o branco sempre vence. Pode ser errado, mas é a realidade. […] Quanto mais velho você ficar, mais situações como essa verá. Um lugar que um homem deveria esperar receber um tratamento justo é o tribunal, fosse qual fosse a cor dele, mas as pessoas costumam levar os seus ressentimentos para os bancos do júri. Quando você crescer, todos os dias você verá brancos lubridiando negros, mas deixe-me dizer uma coisa, e nunca se esqueça disso: sempre que um branco trata um negro dessa forma, não importa quem seja ele, o seu grau de riqueza, ou a linhagem de sua família, esse homem branco é lixo. […] Nosso débito está crescendo e qualquer dia teremos que pagar.

Já em A invenção das asas, de Sue Monk Kidd (2014), temos capítulos alternados de duas visões da história, a da mulher negra e da mulher branca, ambas com suas dificuldades. A cruzada pública das duas irmãs Grimké, as brancas, em meados de 1800, foi repleta de ataques, censura, hostilidade e violência por falarem em público a favor dos direitos das mulheres e dos negros, como fizeram. “Elas balançaram, dobraram e, por fim, quebraram a barreira de gênero que negava às mulheres americanas uma voz e uma plataforma nas esferas políticas e sociais”. Porém, a perspectiva de Hetty “Encrenca”, negra e escrava, era diferente e muito mais de sobrevivência. Ela aprende conforme cresce o que é ser uma escrava, apanhar por não obedecer, ter um preço, o que é perder alguém por morte ou por venda; tem a consciência da injustiça, do próprio cativeiro e do sistema que não faz de ninguém uma pessoa livre, e que as mulheres negras são as que mais sofrem nessa hierarquia.
Hoje em dia, dentro do feminismo, temos o feminismo negro, o que é importantíssimo para lembrar que existe minoria dentro da minoria, já que em ambientes públicos quem tem voz geralmente é a branca. As necessidades das mulheres negras são muito peculiares e urgentes, como a  solidão e a visão sexualizada.
O feminismo negro nos EUA ganhou força entre os anos 60 e 80, mas antes disso, as mulheres negras já desafiavam a mulher determinada pelo feminismo.  Em 1851, Sojourner Truth, ex-escrava que tornou-se oradora, fez seu famoso discurso intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio. Dentre alguns questionamentos, ela diz:

“Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem – quando tinha o que comer – e também aguentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher?”

 Ou seja, declaradamente a situação da mulher negra é bem diferente da mulher branca. Enquanto essas lutavam pelo direito de voz, de voto, as mulheres negras lutavam para serem reconhecidas como pessoas.

Em Sobre a Beleza, de Zadie Smith (2005), apesar de o assunto principal quase ser a briga de ego dos patriarcas da família, vemos a questão da mulher negra tanto na sua juventude quanto no seu amadurecimento retratada com muita delicadeza e comentários que incomodam. Entre universitárias novinhas que sofrem com a beleza ou a falta dela no meio em que vivem, temos senhoras bem vividas, cada uma com sua peculiaridade. A beleza negra ainda é muito inferiorizada e não é tratada da forma que deveria desde criança.

Era por isso que Kiki temera tanto ter uma menina: sabia que seria incapaz de protegê-la do autodesprezo. Com esse propósito, tinha banido a televisão nos primeiros anos, e nunca um batom ou uma revista feminina cruzara o batente do lar dos Belsey até onde Kiki sabia, mas essas e outras medidas preventivas não haviam feito diferença. Estava no ar, ou pelo menos assim parecia a Kiki, esse ódio das mulheres pelos seus corpos – infiltrava-se pela ventilação da casa; as pessoas traziam-no para dentro nos sapatos, inspirava-nos nas páginas dos jornais. Não havia jeito de controlá-lo.

A sexualidade também em pauta mostra que a mulher branca enquanto feminina, delicada, asseada e recatada, diverge radicalmente da imagem de prazer sexual e predatória da mulher negra. Principalmente se for gorda, com peitos e/ou bunda grandes e mais velha.

Seu tamanho tinha um apelo sexual: o sexo era apenas um pequeno elemento de seu alcance simbólico. Se ela fosse branca, talvez remetesse apenas ao sexo, mas ela não era. Portanto, seu peito emitia uma profusão de sinais que escapavam a seu controle direto: safada, fraterna, predatória, maternal, ameaçadora, confortadora – era um mundo de espelhos no qual havia entrado aos quarenta e poucos anos, uma estranha fabulação da pessoa que acreditava ser. Já não podia mais ser mansa ou tímida. Seu corpo a tinha conduzido para uma nova personalidade.

Ainda em Sobre a Beleza, temos a questão das cotas nas universidades. Segundo Monty, o personagem conservador, as oportunidades são um direito, mas não uma dádiva. Estas devem chegar pelos canais adequado ou o sistema é desvalorizado. Kiki objeta:

Aqui, neste país [EUA], nossas oportunidades foram severamente tolhidas, atravancadas, ou seja lá como se queira dizer, por um legado de direitos usurpados – e que para consertar isso alguns descontos, concessões e apoio são necessários. É uma maneira de restituir o equilíbrio – pois todos sabemos que esteve desequilibrado por um tempo danado. No bairro onde minha mãe morava, ainda se via um ônibus segregado em 1973. E isso é verdade. Essa coisa toda está próxima. É recente.

A realidade do negro hoje, assim como a retratada nos livros, de ficção ou não, vai muito além dos achismos de vitimização. A literatura é um terreno em que se constroem e se validam representações do mundo real, da sociedade em que vivemos. Ela pode reproduzir e perpetuar determinadas representações disfarçadas de “realismo”. Esse realismo da obra é uma ilusão de que a história é ancorada na realidade como ela é sem o peso real das representações sociais. Estas representações podem ocorrer de várias formas, o autor pode escolher entre incorporá-las de forma acrítica, descrevê-las para evidenciar caráter de construção, ou forçar o entendimento e o posicionamento de quem o lê.
Se percorrermos as obras literárias é possível ver problemas de representação dos personagens negros. Há, além da ausência do negro na literatura, uma situação grave em relação a escritores e escritoras. A diversidade de narrativa é importante tanto esteticamente quanto politicamente, permitindo acesso a diferentes perspectivas sociais. Essa diversidade e representação social decente através de personagens negros (ou gays, trabalhadores, índios, mulheres, deficientes) talvez ajude alguns brancos a terem noção do que é ser negro no Brasil e no restante do mundo. A literatura ainda é um espaço privilegiado para múltiplas manifestações culturais e ao ingressarem nela esses grupos de minorias estão exigindo um reconhecimento do valor da sua experiência também nesse campo e, consequentemente, perante a sociedade.

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  5. minhassimpressoes.blogspot.com.br

    A primeira vez que ouvi sobre o discurso “E eu não sou uma mulher” foi ouvindo da Djamila Ribeiro numa palestra que ela deu na faculdade onde estudo. Me tocou profundamente.
    A maior parte dos livros citados, ainda não li, mas estão na lista.
    Li “Sobre a Beleza” e suas considerações fizeram com que eu me atentasse para reflexões que passaram despercebidas durante minha leitura.

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