Olhos D’Água, por Conceição Evaristo

Tenho pensado que, geralmente, o que você vive e o que você é influencia na forma que você vê o mundo, que você sente ao ouvir uma música ou ver um quadro. Não é diferente na literatura. Quanto mais entrelaçado estiver o seu eu com aquela realidade (ou ficção), mais significativo será o texto lido.

Eu nasci em um bairro classe média baixa de uma cidade no interior do Rio de Janeiro, nunca precisei trabalhar para me sustentar ou ajudar em casa na infância/adolescência, consequentemente não precisei conciliar os estudos com o trabalho e não me atrasei ou reprovei nenhum ano, podendo emendar a faculdade e terminá-la sem quase nenhum problema. Conceição Evaristo nasceu em uma favela de Belo Horizonte, teve que conciliar seu trabalho de empregada doméstica com os estudos e só terminou o curso normal aos 25 anos, passou em um concurso público e pode cursar a faculdade. Eu mudei para o Rio de Janeiro com recém 18 anos, ela com mais de 25. Apesar de caminhos e origens diferentes, nós temos algo em comum: somos mulheres negras.

Ao longo da vida, mesmo que com certas diferenças no trajeto, mesmo que por trás de uma certa ignorância privilegiada nós acabamos entendendo o que a outra passa, o que o outro passa, o que os negros passam na sociedade brasileira em geral. Não é à toa que Olhos D’água me marcou e encantou tanto. Apesar de ser um livro de contos, eu senti uma continuidade e uma conexão muito grande entre eles. A leveza na escrita dela é magnífica e me fez lacrimejar em vários momentos. Porque mesmo quando se fala de fome, violência contra os seus, dignidade ultrajada, maternidade e dor-amor, não é preciso linguagem grosseira e de fácil entendimento. São 15 contos de muita coisa explícita, mas também entrelinhas, principalmente a da mulher negra, a quem ela dá voz linda e poeticamente. Como em “o Beijo na face”, onde ela retrata um relacionamento abusivo, sem sangue mas com um eterna tensão no ar.

Conceição narra a vida de personagens fictícios que parecem reais porque realmente são. São histórias de exclusão que muitos vivem e muitos fingem não ver, histórias do cotidiano além das cenas de novela e do sensacionalismo dos telejornais. Ela transforma tudo isso em uma literatura leve e poética. E, eu que me achava alguém que não lia contos, me rendi completamente.

“Lá fora, a soneta seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito…”

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  1. Gilmara Bento

    Descobri Conceição este ano (último do curso e logo virou tema do meu TCC. Estou cada dia mais apaixonada. Concordo em tudo com o que escreveu, gostei do seu text. 😉

  2. minhassimpressoes.blogspot.com.br

    Tenho que ler esse livro logo!
    Tenho que consumir mais dessa literatura feita por quem me representa, não só como mulher, mas principalmente como mulher negra e periférica.
    Eu já tenho uma facilidade para lidar com contos, então acho que isso vai ser algo em favor.
    Abraços.

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