A cor púrpura, Alice Walker e o feminismo negro

Condenada ao silêncio, uma mulher negra e quase analfabeta, vivendo no sul dos Estados Unidos, no século XX, onde a opressão é tão certa quanto a pobreza e o desamor. Violada, brutalizada até mesmo pelos homens negros, ela então começa a escrever para Deus.
cartas

A Cor Púrpura é um livro que trata, principalmente, da solidão da mulher, nesse caso da mulher negra, que desde criança tem seu corpo violentado e sua voz silenciada. Através de cartas endereçadas para Deus, Celie conta como sofreu violência sexual desde a infância pelos homens da família e pelo patrão, se “refugiando” então em um casamento com constantes episódios de violência doméstica vindo de um homem que é o verdadeiro sinhozin que  a obriga a cuidar e manter a casa e seus enteados.

Toda a brutal vida que ela leva tem consequências, como o não reconhecimento de sua própria sexualidade, tendo sempre o seu desejo podado e impossibilitado, já que ninguém se importava com o que era importante para ela, com o que ela achava, não sentir nada se tornou real.

Com o tempo, portanto, ela descobre prazer ao lado de uma mulher, que ela já olhava e desejava. Eu apontaria facilmente uma imposição e suposição da heteronormatividade nesse caso, o que é normal até hoje. Ví críticas, inclusive, sobre o diretor da adaptação cinematográfica não ter reproduzido fielmente as questões de lesbiandade descritas no livro. O Blogueiras Negras tem um texto muito legal sobre o amor entre as duas personagens, bem mais aprofundado, vale a leitura.

amor

E, gente, precisamos falar das mulheres dessa história. Apesar da época em que viviam, haviam mulheres fortes, independentes e cheia de opinião, mulheres sofridas mas que não baixavam a cabeça para ninguém, muito menos para branco nenhum. Mesmo na que escolhe casar no lugar da irmã para que ela não sofra o mesmo que ela, vemos uma força imensa. Essa irmã, inclusive, com sua presenteada liberdade viaja para a África, descobre seus descendentes e como viveria. Nettie vê possibilidades e mentiras em muitas coisas euro-centradas da sua vida. Mais tarde, a troca de cartas entre as irmãs é emocionante e triste.

Sofia, Celie, Nettie e Docí formam um grupo de guerreiras que, diariamente e direta ou indiretamente, ensina e fortalece uma a outra. Elas são violentadas, subjugadas, indo para a cadeia por desafiar brancos ricos e desprezadas por seguirem suas carreiras. Com a luta dessas mulheres, às suas maneiras, claro, por liberdade, Celie vai fazendo sua descoberta e sua consciência de dignidade e orgulho.
mulher feia e preta

E amor livre que também é descrito? Docí, grande responsável pelas mudanças na vida da protagonista, é uma mulher livre, quente, como ela mesma diz, e de muitos amores que se apaixona por Celie, mas depois de algum tempo se vê querendo viver emoções e aventuras com um homem mais novo. As duas se amam e entendem que isso é importante para uma delas, a outra então a deixa livre porque amor não prende e limita.

Alice Walker nos conta uma historia de pura sororidade e amor, porque mesmo no meio de sofrimento e subserviência a homens que eram sim grandes influenciadores na vida dessas mulheres, aqui eles eram meros figurantes. Nesse livro, ela retrata um período muito difícil para os negros e muito mais difícil para as mulheres negras.

Após a Emancipation Proclamation, promulgada em 1° de janeiro de 1863 pelo presidente Abraham Lincoln nos Estados Unidos,  “os negros obtiveram direitos iguais aos brancos em 1868. Dois anos mais tarde, […] garantiu-lhes a igualdade de direito eleitoral. Estados como Carolina do Sul, Mississippi e Louisiana, porém, deram um jeito de burlar os direitos dos escravos libertados, mantendo restrições legais, os chamados black codes“. Os black codes eram práticas que restringiam as liberdades e os direitos civis dos afro-americanos, que seriam conquistados – no papel – somente em 1964, com a Lei dos Direitos Civis. Ou seja, continuaram vivendo à margem da sociedade.

As mulheres só obtiveram o direito de votar em 1920, nos EUA, e os negros somente em 1965 após a instituição da lei Voting Rights Act que proibia o uso de parâmetros relacionados à cor da pele e grau de instrução.

escravizada

Pesquisando sobre a vida da autora, descobri que além de escritora premiada, ela foi uma ativista importante nos EUA. Nascida em 1944, na Georgia, ela trabalhava como assistente social, professora e conferencista, e participou, na década de 1960, do movimento dos direitos civis, no Mississippi. Walker ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção  e do National Book Award, ambos em 1983, com A Cor Púrpura. (fonte)

A minha edição é de 1986 e publicado pela Editora Marco Zero, porém o Grupo Editoral Record lançou, pelo selo José Olympio, uma edição novinha em fevereiro desse ano. Espero que eles tenham mantido os erros gramaticais da protagonista e autora das cartas porque isso traz a simplicidade e dor da vida dessa mulher e dos negros afro-americanos.

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