O Livro do Destino, por Parinoush Saniee – direitos da mulher e extremismo religioso

Adolescente na Teerã pré-revolucionária, Massoumeh é uma menina comum, apaixonada pelos estudos. A caminho da escola, ela conhece um homem por quem se apaixona — mas, quando seus familiares descobrem as cartas que ele lhe escreve, Massoumeh é apontada como uma desonra para a família. Como consequência, a jovem leva uma surra violenta do irmão autoritário, e seus pais a obrigam a se casar às pressas com um homem que ela nunca viu.

O livro do destino

Uma das coisas que mais leva ao questionamento, durante o livro, é essa cultura que quase mata porque uma mulher troca algumas palavras com um homem que conhecia havia dois anos, sobre o qual sabia algumas coisas e que amava e, no dia seguinte, a obriga a se casar e ir para a cama com um estranho de quem ela nada sabe e nada sente além de medo. Essa cultura que, até hoje, reduz as mulheres à máquinas procriadoras e à senhoras do lar no lugar de seres humanos com direitos básicos de decidir sobre sua própria vida e seu próprio corpo. No livro, por exemplo, a família de Massoumeh diz que só é recomendado para uma menina estudar o ensino fundamental, mais que isso é dispensável e inútil, já que logo ela se casará e não seguirá uma carreira profissional. Porém, mesmo com todo avanço mínimo de direitos das mulheres em alguns países do Oriente Médio, hoje em dia em “algumas universidades, as mulheres não podem estudar certas disciplinas, desde engenharia até literatura inglesa, como resultado dos ajustes impostos para tentar reverter os avanços realizados em número e percentual de estudantes universitárias”, para tentar confiná-las ao eterno papel de mãe e esposa.

Desde 1906, em Teerã, no Irã, mulheres se manifestam na rua para reivindicar seus direitos enquanto cidadãs (…) porém ao longo dos anos os governos concedem alguns direitos, sempre limitando as formas de reivindicação.

Mostrando que o casamento forçado e precoce ainda é costumeiro, como no caso de Massoumeh décadas atrás, a Organização Nacional para o Registro Civil relata que em 2014 havia 41.226 meninas entre 10 e 14 anos casadas e ao menos 201 menores de 10 anos.

Por motivo d’O Livro do Destino abranger as cinco décadas turbulentas da história do Irã, os anos que se seguem ao casamento de Massoumeh revelam-se transformadores não só para o crescimento dela, mas para o próprio país. Hamid, seu marido, é um dissidente marxista, perseguido primeiramente pelo regime opressor do Xá e depois pelos fundamentalistas que ele próprio ajuda a chegar ao poder. O destino de Massoumeh, até então ditado pela lealdade à família e à tradição islâmica, passa a ficar atrelado às mudanças radicais no país. De qualquer forma, sempre a honra dos homens da família, sobre responsabilidade dela, é que sempre valeu e foi importante. Desde a do pai, do irmão bêbado e violento, do irmão fanático religioso, quanto a do marido e até dos filhos que ela criou de forma liberal. Tanto que já com idade avançada seu filho mais velho a pede para usar o chador em respeito à um senhor mais velho, Massoumeh rebate:

Você sabe quantas vezes tive de mudar o modo como me cubro de acordo com o que os homens achavam adequado?

Hamid, seu marido, é um caso curioso. Marxista, acredita em direitos iguais para todos os gêneros e raças. Com discursos prontos, que parecem sair de livros ou de um jornal, parece que toda vez que falava estava lendo um documento. Ele e seu grupo de combate ao autoritarismo no país, discursavam e faziam planos para derrubar o regime opressor do Xá. Muitas vezes argumentavam com tanta veemência e rigor, imersos em suas crenças, que acabavam desrespeitando a opinião alheia, mostrando o perigo da ideologia, tornando-se mais tarde uma pessoa fanática, não criterioso e empático.

Em diversos momentos se mostrou o verdadeiro esquerdomacho: acha que o casamento só é feito para o bem do homem, que a mulher é oprimida severamente, luta por igualdade, se diz moderno e esclarecido por não se guiar por uma religião que o cega, mas culpa a mulher por não ter usado métodos contraceptivos e evitado uma gravidez indesejada, à reduz ao que ela sabe ou não fazer, quer as refeições na hora certa e a oprime pelo que veste na frente dos amigos. Sem falar de não estar presente na criação dos filhos. Desde o início do casamento, graças ao acordo de que nenhum dos dois deveria interferir nas atividades do outro e Massoumeh tenha conseguido alguns de seus direitos humanos, no final acabou sendo uma regra que não a beneficiou. Qual a moral e a honra de uma mulher que nunca tinha o marido ao lado? Que tomava decisões, ia a lugares sozinhas, que estudava?

Massoumeh serviu como um exemplo para mim, pois mesmo que eu tenha meus direitos reconhecidos na sociedade ocidental, ainda sofro opressão por muitas escolhas que diferem do que deve ser uma mulher direita. Ela mostra que você pode ter fé, ter sua rotina religiosa, respeitar sua família, seu lar e mesmo assim lutar pelo que acredita, ir atrás do seu sonho, no caso dela terminar a faculdade mesmo com tantas dificuldades, e ainda ter discernimento do certo e do errado. A protagonista amadurecida sabe muito bem onde o fanatismo tanto do irmão extremista religioso quanto do marido comunista os levaram e, principalmente, a levaram. Em uma conversa com o filho que idolatra o pai desde criança, ela afirma:

Eu quero que você confie nos seus próprios pensamentos e crenças, que pese o bom e o ruim de tudo, lendo e aprendendo, depois tomando uma decisão e tirando suas conclusões. A ideologia pura é uma armadilha, faz de você uma pessoa preconceituosa, obstrui o pensamento e a opinião individuais, e cria tendenciosidades. E, por fim, faz com que se torne uma pessoa fanática , unidimensional. (…) Estou cansada de heroísmos.

Mas, no fim das contas, ela nunca viveu para ela. Sempre a esposa de um traidor ou de um herói pela liberdade, a mãe de um dissidente ou amante da liberdade. Não a elevaram devido às suas próprias atitudes ou habilidades, nem a atiraram ao chão devido seus erros. Nunca trabalhou por ela, nunca viveu por ela. Como se nunca existisse.

No Irã o Estado e a religião caminham juntos, não há separação entre eles, de forma que a religião influencia em tudo no Estado, os direitos humanos são cerceados principalmente os das mulheres, considerados seres secundários, baseados no livro sagrado do islamismo. Não à toa o livro em questão foi proibido no Irã duas vezes e outros livros da mesma autora ainda aguardar a aprovação da censura iraniana.

Para comprar o livro: O livro do destino, na Amazon 🙂

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