#LendoCasaGrandeeSenzala – Parte I – Formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida

casa grande - texto

Depois de longas 64 páginas distribuídas em apresentação e prefácio, finalmente cheguei no início do livro: I – Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: Formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida – páginas 64 a 155.

A introdução do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é muito contraditória. Em muitas partes ele dá a entender que concorda com o que foi apresentado pelo autor Gilberto Freyre (concorda no sentido de que é importante para a história do brasileiro), em outras deixa a crítica da visão do mundo patriarcal de nosso autor assumir a perspectiva do branco e do senhor. Concordei em muito só nesse início, explico mais a frente.

Já o prefácio não muda muito de prefácios normais, além do autor divagar muito, ele conta e agradece suas fontes..

Como já diz o titulo dessa primeira parte, temos um apanhado sobre a formação da sociedade brasileira pelos portugueses. Esses que são tratados mais como anti-heróis, somente oportunistas e com caráter variável. Como se todo o abuso de “poder” e escravatura fosse justificável para o bem e desenvolvimento da colonização.

Em geral, esse capítulo traz os fatos que levaram Portugal à vitória na colonização, diferente dos europeus que chegaram antes e não deixaram nem rastros: 1) a mobilidade, o que explicaria ter “conseguido salpicar virilmente do seu resto de sangue e de cultura populações tão diversas e a tão grandes distâncias umas das outras: na Ásia, na África, na América, em numerosas ilhas e arquipélagos.” (pág.70); 2) a miscibilidade que, mais do que a mobilidade, compensou a deficiência em massa e volume humano para a colonização em áreas extensas e em larga escala. Quanto à isso, Freyre diz que os portugueses acabaram “misturando-se gostosamente com mulheres de cor logo ao primeiro contato e multiplicando-se em filhos mestiços.” (pag.70); e 3) a adaptação ao clima tropical, tanto para viver quanto para plantar e cultivar.

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O livro aponta também muitos problemas em relação a monocultura, que levou a falta de alimentos e uma visão ruim, dos outros europeus, em relação a colonização aqui. Fala também de como a família, e não o indivíduo nem tampouco o Estado, “é o grande fator colonizador no Brasil, a unidade produtiva, o capital que desbrava o solo, instala fazendas, compra escravos, bois, ferramentas, a força social que se desdobra em política, constituindo-se na aristocracia colonial mas poderosa da América”.(pág.81)

Nos séculos XV e XVI, a jurisprudência criminal entre os portugueses era duvidosa. Enquanto quem se dirigisse de forma desonrosa aos santos tinha a língua arrancada pelo pescoço, quem cometia estupro da filha ou matava o próximo, o criminoso não era mais severamente punido do que pagar uma multa de galinhas ou algum dinheiro. Até o século XVII, os jesuítas se aproveitaram da influência de seu sistema uniforme de educação e de moral sobre uma sociedade ainda em construção, como o Brasil. Temia-se o perigo do herege, se soubesse rezar o pai-nosso, o estranho era bem-vindo no país. Daí ser tão difícil separar hoje o brasileiro do catolicismo, pois este foi realmente o “cimento da nossa sociedade.”(pág.92)

Ainda em relação à miscibilidade, o autor mostra e divide as mulheres em morenas de olhos pretos, envolta em misticismo sexual – se banhando no rio sensualmente – e a índia nua e de cabelo solto, também de olhos e cabelos pretos, porém menos ariscas e que se vendiam aos homens. Com a fama do envolvimento dos homens europeus com as mulheres de cor, muitos vinham atraídos pela possibilidade de vida livre no meio de muitas mulheres nuas. Essa preferência gerou ainda o ciúme e a inveja sexual da mulher loura contra a de cor. E ainda repercutiu o ódio religioso, “ódio que resultaria mais tarde em toda a Europa na idealização do tipo louro, identificado como personagens angelicais e divinas em detrimento do moreno, identificado com os personagens maus, com os decaídos, os malvados, os traidores.” (pág.71)

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É interessante ter uma visão do Brasil colonial, saber como eram as plantações, como os colonizadores sofriam com os rios maiores e irregulares que atrapalhavam toda colheita, como foi que habitaram as margens e foram se estabelecendo. Mais maravilhoso ainda é ver tanta coisa que acontece hoje no século XXI ser explicada, ter uma origem. A leitura tem sido bem proveitosa mesmo achando que Freyre romantiza e invisibiliza o trabalho escravo, citando pouco o trabalho braçal dos índios e negros escravos. Mas os próximos capítulos serão sobre isso e espero que as coisas melhorem. Ainda naquela época (e nessa, porque não?), a sociedade democrática tinha recentemente saído do regime de senhores e escravos, mas pelo jeito que tenho visto o livro, ele parece ser contado no viés de um senhor.

Não quero me precipitar muito no julgamento, tem muito para acontecer ainda. Até semana que vem.

Onde comprar o livro:

Casa-Grande & Senzala, na Amazon 🙂

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  1. Flor… que projeto incrível!!! Pena não poder participar agora, mas adorei a iniciativa. Tenho esse livro há tempos na estante, mas nunca tive “coragem” para ler! Assim que possível e se me permitir vou iniciar esse projeto no meu blog, pois achei diferente, interessante, fenomenal e fantástico a escolha deste livro para um projeto literário.

    Parabéns pela iniciativa.
    Bjs
    Keyla – Blog Leituraterapia (http://www.blogleituraterapia.com.br/)

    • Oi, Keyla. Muito feliz que tenha gostado! Leia sim, está sendo muito interessante. Eu nem esperei ele esfriar na estante senão perderia a coragem também hahah qnd começar me conta o que achou.
      Beijos

  2. Pingback: #LendoCasaGrandeeSenzala – Parte II – O indígena na formação da família brasileira | Livro do dia

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