#LendoCasaGrandeeSenzala – Parte II – O indígena na formação da família brasileira

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Constituição da área de uma Casa-Grande

Confesso que já na primeira parte do livro eu já fiquei com o pé atrás e agora leio com muita atenção tudo para procurar defeito mesmo.

Na Parte I, o autor nos conta as características gerais da colonização portuguesa no Brasil, já na Parte II, temos a caracterização dos nativos indígenas e de como os colonos mataram toda uma cultura que caminhava do seu jeito até estes chegarem aqui muito pomposos e superiores. Já entendi que Gilberto Freyre tende a romantizar tudo que acontece por aqui, não a toa já na quarta página eu me choquei com o que havia lido sobre a constituição harmoniosa da sociedade brasileira desde o descobrimento.

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Sério?

Bom, só com esse parágrafo eu consigo resumir todo o capítulo. É falado muito, mais uma vez, da harmonia quanto às relações de raça que, sinceramente, só consigo enxergar harmonia se observamos, calmamente no lugar de um colonizador, a raça considerada atrasada, já que não seria a cultura e dinâmica de vida desse colonizador sendo destruída e esmagada a partir de princípios considerados corretos por ele.

Seguindo, temos a reciprocidade cultural que resultou no máximo de aproveitamento dos valores e experiências dos povos atrasados pelo adiantado, no máximo de contemporização da cultura adventícia com a nativa, da do conquistador com a do conquistado. Mais a frente do capítulo, vemos quais as experiências e valores aproveitados:  “O asseio pessoal. A higiene do corpo. O milho. O mingau” (pág.163). Diz-se também das plantas e ervas medicinais de conhecimento e uso dos índios, até lamentada a difícil relação entre os primeiros missionários e os pajés e curandeiros, pois essa lista poderia ser maior. Além, claro do trabalho braçal e escravo tanto dos homens quanto das mulheres. O choque entre as duas culturas onde, obviamente, prevaleceu a europeia e católica, teve um efeito disgênico e dissolvente dos índios aqui encontrados, “a degradação moral foi completa, como sempre acontece ao juntar-se uma cultura, já adiantada, com outra atrasada” (pág.177).

Sob pressão moral e ética, fica claro em muitos trechos do livro o quanto a imposição da cultura europeia fez com que o indígena perdesse a capacidade de desenvolver-se autonomamente e sufocou toda a espontaneidade nativa como os cantos indígenas e até a naturalidade da sua língua substituída por uma “geral”.

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Freyre cita na página 179 um quadro de Pitt-Rivers que lista 15 características, onde somente nove foram consideradas importantes citar, que ajustavam as responsabilidade europeias na degradação da raça e da cultura indígena no Brasil, ao sistema civilizador dos jesuítas. Nesse momento eu agradeci às deusas por finalmente ser dada algum tipo de culpa por parte do colonizador português. São elas: 1) concentração dos aborígenes em grandes aldeias; 2) vestuário à europeia; 3) segregação das plantações; 4) obstáculo ao casamento à moda indígena; 5) aplicação da legislação penal europeia a supostos crimes de fornicação; 6) Abolição de guerras ente as tribos; 7) abolição da poligamia; 8) aumento da mortalidade infantil devido a novas condições de vida; 9) abolição do sistema comunal e da autoridade dos chefes.

É citado, em alguns trechos pequenos, o quão violento podia ser o tratamento dos nativos pelos invasores, apesar de parecer que as relações eram fraternais boa parte do tempo, principalmente no que se dizia em relação a catequização, ao processo civilizador dos jesuítas e do aprendizagem da nova língua, o tupi-guarani. Como era difícil fazer dobrar os indígenas já adultos, os jesuítas prestaram sua maior atenção ao menino indígena. Educaram o filho para poder educar o pai.

No último trecho daquele parágrafo tem-se: Organizou-se uma sociedade cristã na superestrutura, com a mulher indígena, recém-batizada, por esposa e mãe de família; e servindo-se em sua economia e vida doméstica de muitas tradições, experiências e utensílios da gente autóctone. Com essa reorganização à moda europeia católica, colocou-se a mulher como centro da família e o homem como provedor. Com essa moral que lhes foi imposta, a vida econômica, muitas vezes insatisfatória onde o homem mal podia sustentar a si próprio, levou o índio a um tipo de tristeza mortal e fuga “para o mato”, dando fim a muitas famílias, além de aumento da mortalidade infantil e diminuição da natalidade.

Claro que essa fuga não agradava e os processos de captura fazia desperdício de gente: talvez maior que na captura e transporte de africanos. E, quanto ao trabalho dos índios mal acostumados a pesadas tarefas nas fazendas, preferia-se o bom e forte negro.

Os numero de índios possuídos pelo colono, sob o nome de “peças”, tornou-se índice de poder e importância social de cada um. Essas peças eram como moedas, moedas de carne. “Moedas de cobre depois substituídas pelas “peças de Guiné”.(pág.227)

Quanto aos utensílios e tradições, ficou como herança brasileira o modo  de produzir cumbucas e potes para comer e cozinhar; e algumas crenças em criaturas místicas para assustar crianças e adultos. Muitas são as características da moderna (naquela época onde o livro foi escrito, mas talvez hoje ainda) cultura brasileira, de origem nitidamente ameríndia: rede, mandioca, banho de rio, caju, óleo de coco, milho, descansar e defecar de cócoras; e ainda de origem indígena: pé descalço, “muqueca”, cor encarnada, pimenta, tabaco e bola de borracha que os índios costumavam jogar.

Além das milhares de citações em francês (e inglês e espanhol) sem tradução (espera-se que eu saiba todas essas línguas?), me revolta a forma fraternal como a chegada do portugueses ao Brasil é tratada quando na verdade os escravos índios, como depois os africanos, foram, no Brasil, o capital de instalação dos brancos, muitas vezes chegados aqui sem recurso nenhum. Fico imaginando como será a parte onde ele fala dos negros trazidos da África como escravos.


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