A revolta da cachaça – Antonio Callado e o Tetro Negro

Vito, um dramaturgo branco, e Dadinha, sua esposa também branca, ganham um presente inusitado e sem remetente: um tonel de cachaça. Em seguida recebem a visita inesperada de Ambrósio, amigo de longa data, negro, ator, para quem Vito prometera uma peça de teatro anos antes. Depois, acontece a revelação: Ambrósio era o responsável por aquele presente. Apesar de remeter à uma peça chamada A revolta da cachaça, o livro trata de Ambrósio desesperado para ter um papel que não fosse subordinado e estigmatizado, o preto fazendo o papel do criado, do chofer e bicheiro. Ele acredita que essa peça seja a chance dele. O desespero de Ambrósio é tão grande que ele vai ao encontro de Vito e Dadinha preparado para viver ou morrer.

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Aparentemente leve, o livro traz a problematização da sociedade e seu mito de “democracia racial”. Diante dessa crítica política, os conflitos encenados nos colocam diante do racismo institucional instalado na sociedade brasileira, que no teatro, na televisão e no sistema educativo se mostram ostensivamente imposto.

O assunto é tão atual que no Oscar 2016, a maior premiação do cinema foi fortemente criticada por não possuir diversidade racial entre os indicados. Foi proposto ainda um boicote por parte de vários atores negros. Ainda assim, o prêmio foi apresentado por Chris Rock, ator e apresentador negro, quase como uma forma de consolo para os negros (e, aproveitando, eu detestei o discurso de abertura dele).

Ironicamente, o ator negro d’A Revolta da Cachaça só pode se exprimir artisticamente através do dramaturgo branco, dependendo então da benevolência do mesmo de terminar de escrever a peça e dar a oportunidade para ele interpretar o personagem que ele merecia. É através de Ambrósio que o leitor fica sabendo do que se trata a Revolta. A Revolta da Cachaça foi um episódio que ficou conhecido com este nome, no Rio de Janeiro, de que resultou a morte de João de Angola e de Jerônimo Barbalho, decapitados no dia 6 de abril de 1661, na frente do Convento de Santo Antônio, por contrariar uma proibição da metrópole referente à produção de cachaça na colônia.

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Nesta peça de Callado é importante lembrar a presença do ator negro, como personagem principal, que pede – chegando a intimar- para representar um papel vivido por um outro negro na história, levando-nos ao tema da resistência, como forma de afirmação do negro, numa sociedade que tende a conferir-lhe papéis secundários na vida e no teatro, como lembra o personagem Ambrósio em vários momentos da peça. Entretanto o personagem não age de forma a levá-lo a resistir ou pelo menos a tentar resistir diante dos obstáculos que se impõem à sua realização profissional como negro dentro do teatro. O personagem luta isoladamente e de forma suicida, provocando, inconscientemente, a sua própria aniquilação.

Ambrósio explode: “Estou de saco cheio de fazer papel de marginal, o cara que fica na praia espiando barco, no meio-fio olhando automóvel, sempre na beira, na margem. Vim aqui cobrar a fama que você me deve. Vim pra morar, pra morrer. Mas no meio do rio ou da rua. Chega de margem.

Foi por achar que os negros deveriam ter papéis que resgatassem os valores da pessoa humana e da cultura negro-africana, degradados e negados por uma sociedade dominante, Abdias Nascimento, em 1944, fundou o Teatro Experimental Negro – TEN. Propunha-se o TEN a trabalhar pela valorização social do negro no Brasil, através da educação, da cultura e da arte. Tudo isso surgiu após Abdias assistir uma peça, em um teatro municipal no Peru, onde o papel do herói era representado por um ator branco tingido de preto. O famoso e desprezível BlackFace. Por que um branco tingido de negro? Pela inexistência de um intérprete dessa raça? Por que a sociedade ainda insiste na inferioridade e falta de beleza e talento do negro?

Sobre esses tipos de papéis secundários do negro citados no livro, isso quando é dado algum papel e um ator branco se presta ao blackface, me lembrei do brilhante discurso da Viola Davis, ao ser a primeira mulher negra a ganhar um Emmy de melhor atriz em drama:

“E deixe-me dizer uma coisa, a única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem.”

E comecei a lembrar de outros casos aqui, como o colorismo da Zoe Saldaña, selecionada para interpretar a Nina Simone. A moça colocou implantes para aumentar o nariz e a boca e ainda escureceu a pele. Não haviam outras atrizes negras e mais parecidas com a Nina?

Bom, o teatro negro aqui apresentado pelo Antônio Callado me parece válido e sensibilizado pelo teatro proposto por Abdias. A revolta da Cachaça é uma das publicações dentre uma série de reedições dos títulos teatrais do dramaturgo planejada pela editora José Olympio. Nos textos, Callado trabalha com a figura dos excluídos, os marginalizados e até associa um de seus protagonistas a Zumbi dos Palmares, o que nos reporta ao Teatro Experimental do Negro de Abdias do Nascimento, na década de 40. Essa foi minha primeira obra dessa série e lerei outras assim que tiver a oportunidade.


Para comprar o livro:

A Revolta da Cachaça – Antônio Callado

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  1. Pingback: Só o sofrimento vende na literatura negra? | Livro do dia

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