A mulher habitada, Gioconda Belli e quando você espera demais de uma autora

Giocionda Belli é uma poeta nicaraguense conhecida mundialmente. Sua poesia e romances foram traduzidos para diversos países e alcançou dezenas de milhares de cópias vendidas. Sua poesia era criada em meio à luta contra o governo ditador, quando ainda jovem se aliou a frente de libertação nacional. É possivel observar a influência da sua vida ativista na história desse seu primeiro romance A mulher habitada, publicado no Brasil pela primeira vez em 1992.
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a mulher habitada - gioconda belli
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Na América Latina da década de 70, Lavínia é uma mulher privilegiada, dentro dos padrões sociais e estéticos, e considerada subversiva pelos seus pensamentos e estilo de vida feministas. Depois de se formar em arquitetura na Europa, volta para Fáguas, seu país natal, e começa a olhá-lo de um jeito diferente. Paralelamente temos Itzá, que lutou, quase 500 anos antes, contra os espanhóis que chegaram à América em busca do ouro, sob o pretexto da evangelização.
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O romance é fracamente desenvolvido, assim como seus personagens. Com a premissa de ver duas mulheres oprimidas que abandonam o tradicional papel submisso e que engajam-se na luta pela liberdade, era de se esperar um mínimo de empoderamento e dedicação em alguns detalhes. Senti que as informações foram jogadas, poderia ter ensinado tanto sobre a colonização espanhola e até sobre a ditadura que a autora ajudou a derrubar. Isso se deve ao fato de que a narrativa é em 3º pessoa e, sendo Lavínia novata e meio excluída no movimento, não é possível se inserir na história e nos planos que são tramados. A gente fica ali, meio que viajando junto com ela.
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Querendo correlacionar a guerra do passado contra os espanhóis com o momento ditador da década de 70, Gioconda falha em animar o leitor a continuar. Mesmo com a narrativa poética, as coisas não acontecem, só houve ação no final (últimas 60 páginas de 400!) e parece que até esse momento nada tinha acontecido de emocionante. Um marasmo só.
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a mulher habitada - gioconda belli 2
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Outra questão mal explorada foi a “habitação”. Lavínia e Itzá não se cruzam a toa. Itzá reencarna em forma de laranjeira, mostrando um pouco como era a cultura quando os espanhóis chegaram, e influencia Lavínia através do seu suco. As duas então tem uma ligação e Lavínia às vezes tem lembranças e desejos que não a pertenciam. Mas Lavínia é ruim, nem como uma guerreira “das boas” puxando ela, ela me convenceu. Apesar de falar do papel da mulher ativamente nas histórias e nas guerrilhas (só homem que recebe medalha por tudo sempre, né?!) e de Lavínia ser uma mulher independente e moderna, algumas situações  e questionamentos feministas foram apenas jogados em diálogos ruins. Sem falar no namorado machistinha de esquerda. Sempre tem que ter um. E, por falar em namorado, esse romance, para mim, parece tão sem graça quanto um prato sem salada para colorir a vida.
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Logo, o livro não me acrescentou nada, nem mesmo em narrativa. Não me deixou com a sensação de ter aprendido nada (sei que nem todo livro tem essa função, tá? Mas estávamos falando de história). Guerra contra os espanhóis? Ditadura? Nem vi. A Gioconda libertária deve ser muito legal, mas esse livro não foi.
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