Lemonade também é para leitores

A primeira vez que eu assisti Lemonade, eu imediatamente reconheci uma história. Enquanto ouvia a narrativa entre as músicas, peguei meu caderno e escrevi frases do mesmo jeito que escrevo quotes de romances.

Não foi só uma série de vídeo clipes como Beyonce auto intitula o álbum. Com a união da poesia de Warsan Shire, letras da Beyonce e uma fotografia incrível, somos presenteadas com uma narrativa completa. Beyonce assim escolheu fazer com que devorássemos Lemonade como um todo, o que muda nossa interação com o trabalho dela. Ela pega uma personagem da história e nos compele a considerar o contexto e o significado de cada letra.

Há uma série de peças mentais sobre o contexto mais profundo e a importância cultural de Lemonade. Muitas delas são as mesmas questões que levantamos em nossos livros favoritos, especialmente aqueles escritos por mulheres e autoras e autores não-brancos. O quanto isso é autobiográfico? O que posso assumir sobre esse personagem? Roxane Gray fez um excelente apontamento em uma entrevista quando disse: “muitas vezes a única coisa que a mulher é permitida a fazer é ser especialista em si mesma”. Eu rapidamente fiquei cansada com toda a especulação sobre a vida particular da cantora e queria ver Lemonade como um trabalho de arte, um trabalho de ficção. Parece mais interessante e dinâmico considerar o álbum/video como uma história que Beyonce criou intencionalmente para e sobre a mulher negra.

lemonade

Fiquei especialmente envolvida com a poesia de Warsan Shire. Os excertos presentes em Lemonade formam uma narrativa mais profunda. Nós seguimos o desenredo e a reconstrução de uma mulher injustiçada, passando pelas emoções dela. A poesia de Shire nos guia mais afundo pela narrativa e pela descrição alegórica do homem em questão, parecendo mais uma fábula. “Você me faz lembrar meu pai/ um mágico/ capaz de estar em dois lugares ao mesmo tempo” (“You remind me of my father/ a magician/ able to exist in two places at once.”) ou “como os homens da minha família/ você chega aqui às 3 da manhã/ e mente para mim” (“In the tradition of men in my blood/ you come home at three a.m./ and lie to me.”). Estas palavras nos guiam a primeira música, “Pray you catch me”, onde Beyonce indica alguma revelação. Esse conflito inicial é necessário para começar a história. A ação combinada entre o verso e a música serve como um gancho para o leitor –ou nesse caso, o ouvinte – criando um impulso para o que está a vir.

Em todo bom livro, nós precisamos conhecer o personagem. A poesia de Shire revela uma mulher que é assertiva e duvidosa. Esse vai-e-vem de “Eu tentei mudar…ser flexível/mais bonita/menos ativa” e “por que você não me vê? Todo mundo consegue” (“I tried to change…to be soft/prettier/less awake” to “why can’t you see me/ everyone else can”), traz vitalidade e emoção para a mulher que podemos sentir e nos identificar, e ainda proporciona um propósito para a raiva do personagem, exprimida em Hold On e Don’t Hurt Yourself. Aqui, nós temos a ação, o plot, a intenção.

Ao longo de Lemonade, vagarosamente vemos o desenvolvimento, a realização e a mudança da personagem. O vídeo nos leva com palavras que funcionam como títulos de capítulos como Reformation, Forgiveness, Ressurection, Hope e Redemption. Nisso, nós temos um arco inteiro (a queda, a mudança e o crescimento), como base para uma personagem consciente.

Uma das minhas coisas favoritas desse álbum/curta/história é a colaboração entre Beyonce e Warsan Shire, essa combinação de música/poesia/verso é tão fudamentada na mitologia e magia e do discurso de mulheres negras. O álbum proclamou orgulhosamente o senso de autonomia, enquanto mostrou a força que exige a luta, a sobrevivência e a empatia. Isso é o que a boa literatura fez por mim: celebrar essas histórias de mulheres negras agindo e levantando umas às outras.

Lemonade foi feito para leitores. Beyonce deu trilha sonora para livros inspiradores e empoderadores como Kindred, da Octavia Butler. Assim como O Olho mais azul, Mulheres que correm com lobos, Daughters of the Dust e Their Eyes Were Watching God. Observar Lemonade como uma leitora me fez apreciar o trabalho de Beyonce como a artista completa que é, incluindo escritora, e ser testemunha desse lindo derrubamento dos muros que nós normalmente construímos entre letras musicais e literatura.


Esse texto é uma tradução livre de “Beyonce’s Lemonade is Made for Readers”, escrito por Jamie Moore e publicado em Book Riot, em 05/05/16.

Eu gostei tanto que quis compartilhar por aqui. Espero que tenham gostado tanto quanto e que enxerguem muitas formas de arte por aí como uma possibilidade de literatura 🙂

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