Só o sofrimento vende na literatura negra?

No final de um livro, em uma das minhas crises para saber o que ler em seguida (não chegava nem a ser ressaca literária), eu tinha muitos livros a minha frente, mas nenhum me agradava e chamava a atenção. Resolvi então que queria algo leve e que fizesse só passar o tempo. Com isso, filtrei e as opções eram menores. Tinha que ser escrito por mulher, claro. Mais um filtro. E então decidi pegar um que eu troquei há um tempo e só adiava. Era Roubada, da Lesley Pearse.

A capa: mulher de pele branca, cabelos louros e olhos azuis. A sinopse começa assim: “Quando uma bela moça loira foi encontrada desacordada em uma praia…”

Parei na primeira frase e descartei o livro.

Crise maior ainda.

Comecei a me questionar muito sobre o meu “vício” em livros com uma carga histórica ou sentimental pesada demais. E dentre todos os meus filtros, que eu descartei para facilitar, eu queria o mais importante: que fosse escrito por um homem ou por uma mulher negra. Mas nos livros da minha estante isso quase não se encaixava na categoria “leve”. Então, o problema central era: por que eu não tinha autoras que só escreviam ficção sem um rótulo? Qual o problema em publicar autoras negras de ficção que não escrevessem apenas sobre o como ser negro no mundo é sofrido? Fiquei devastada com a consciência de que só o nosso sofrimento vende.

Li recentemente Carolina Maria de Jesus, que me retornou a essa divagação. Por que, Carolina, autora de Quarto de Despejo, um livro traduzido para 13 idiomas, não é amplamente divulgada? Por que sua obra é somente estudada na academia? Por que, quando ela quis mostrar seu talento (ela era poetisa, dizia), teve suas asas cortadas? Só servia a Carolina favelada e que passava fome?

É normal que a literatura seja uma extensão do que se vive (não a toa eu reclamo tanto dessa literatura branca-homem-hetero, porque os livros amplamente publicados e divulgados são de homens brancos heteros. Já viu essa pesquisa da Dalcastagné?). Mas até que ponto a vida e a literatura dessas pessoas negras fica restrito só a essa escrevivência? Por que polir a criatividade dessas pessoas e não permitir que elas se expandam em tantos gêneros literários existentes?

É diante da necessidade de mudar o estereótipo do personagem negro que escritoras e escritores negros os inserem em suas histórias. A literatura marginal e periférica, por exemplo, nasce dessa necessidade de dar voz e amplificar os problemas sociais e políticos. E, se fizermos um recorte de gênero, a literatura periférica feminina fala disso e de maternidade, sororidade, problemas com o corpo, machismo.

E é aí que eu me rendo. Porque eu não consigo mais ler como antes sobre a mocinha branca indefesa (e aqui sempre há um recorte, tá? Sei que existem personagens fortes e sou defensora delas também, mas já foi entendido o ponto principal do texto). Se eu pego um livro escrito por homem branco é impossível para mim não problematizar a falta de diversidade daquele livro e, principalmente, da falta de problematização.

Mas aí só te agradam esses livros densos? Não. Eu tenho o conto maravilhoso Onde estaes Felicidade? (disponivel para download gratuito aqui), da Carolina, eu tenho A cabeça do santo, da Socorro Accioli, tenho Kindred, da Octavia Butler (cito ele em tudo aqui, já percebeu?), tenho livros da Marie Ndyiae. Eu tenho até os livros da Chimamanda, que são bastante problematizadores, mas Americanah é um livro sobre uma jovem nigeriana nos EUA que começa a se perceber como negra (sair da sua zona de conforto e do seu mundo familiar faz com que isso aconteça, já passei por isso). Meio Sol Amarelo é sobre e para a Nigéria, sabe?

Eu posso me ver representada em muitos livros que não são só sobre escravidão, fome, morte e violência. Mas também consigo enxergar que muitas vezes é impossível separar, pois é o que faz parte da história. O problema é quando não sabem que não somos só isso e que valorizem somente a nossa tragédia. Isso ficou mais que claro nesse meu primeiro contato com Carolina Maria de Jesus, são dois contos, um ficcional e um aparentemente autobiográfico. Onde estaes Felicidade? É lindo, poético e mostra toda a criatividade da autora. E Favela é tão dia-a-dia daquela mulher-mãe, favelada, catadora de papel e de uma força imensa, o que também é bem presente na literatura de Conceição Evaristo.

Eu posso ter muito mais que a minha carne rasgada como em Doze anos de escravidão e mais que meu corpo abusado em A cor púrpura, só precisamos que seja fácil chegar nesses livros, que eles sejam acessíveis. Precisamos que nosso mercado editorial enxergue esses problemas e nos represente assim como representa e homenageia a mulher e o homem branco.

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  2. Enzo

    Beatriz… eu novamente aqui!
    Esse seu texto diz tanto.
    Deixa eu tentar expor aqui o que eu vejo nesse labirinto.

    1. Associar grande arte com grande sofrimento infelizmente é considerado caminho único para, (provavelmente) a maioria dos leitores.

    2. Um outro fator que parece obrigar o escritor negro a fazer livros sobre o sofrimento racial é a própria militância. Recentemente eu li “Seus Olhos Viam Deus”, da Zora Neale Houston, e no prefácio e no posfácio explica que um dos fatores pra obra dela ter caído no esquecimento foi o fato de que não era engajada. “Críticos negros homens foram muito mais duros na avaliação do romance. Desde o início de sua carreira, Zora foi severamente criticada por não escrever ficção na tradição do protesto”. Ou seja: o livro pode até centralizar a raça negra, mas se ele não mostra o sofrimento racial, ele é para “agradar brancos”.

    3. Minha mãe teve sempre alguns livros de autoajuda aqui em casa, e eu lia entre amigos na minha adolescência, pra dar risada das frases positivas & co. Tinha um livro que, quando eu chegava no final, observava que não tinha foto da autora na orelha. A autora se chamava Iyanla Vanzant. E eu sempre imaginei essa autora como uma canadense branca rica e feliz que não tinha o que fazer e ficava escrevendo essas coisas: “abra a janela, sinta o vento entrar”. Com que surpresa descubro muitos anos depois, na Oprah, que a Iyanla era negra. Por que essa desimportância só me foi dada tanto tempo depois? A palavra “desimportância” na questão racial é tão tensa que parece um cabo de guerra. A Toni Morrison falou em algumas entrevistas a falta de dimensão que os autores brancos tem sobre como colocar a raça de um personagem no texto, a não-consciência desse desafio, porque isso é extremamente importante e ao mesmo tempo extremamente irrelevante. E quanto mais contemporânea a história, eu acho maior o desafio.

    4. Por fim chegamos ao mercado editorial, aquele que escondeu a foto da Iyanla, porque “afinal se é um texto que não vai falar de sofrimento racial, por que mostrar que a autora é negra?” (imagino o editor pensando isso). Não tenho dúvidas que foi pra enganar leitor racista, tentando abocanhar essa fatia (grande? muito grande? média?) do mercado leitor.
    Trabalhei em livraria durante anos. Uma vez uma cliente me pediu um livro grosso e bem escrito, ofereci vários e ela foi recusando sem piedade. Comecei a mostrar obras de autores mais clássicos e ela pareceu de repente um pouco interessada; eis que quando ofereci Noite e Dia (da Virginia Woolf), a cliente soltou o livro como se fosse merda. Eu perguntei o porquê, ela disse: “é que ela se matou né…”. Eu fiquei tão raivoso que disse: “olha, tem tanta gente idiota por aí morrendo morte natural”. E abandonei a cliente. Como explicar que os livros da suicida são odes à vida, amor à vida? Como é que um editor dialoga com essa cliente? Os livros tem mais orelha do que ela…

    inté!

    ps: terminei Kindred (que maravilha!).

  3. minhassimpressoes.blogspot.com.br

    Bia,
    Eu nunca tinha parado para pensar nesse assunto que você trouxe hoje.
    Tenho tentado ler mais autores negros, principalmente mulheres, mas o assunto do livro nunca foi um dos critérios dessa minha escolha.
    Você tem toda razão, é muito comum nos livros (até nos livros) haver uma limitação de temas. Sei que há muitas autoras e autores negros que escrevem dentro de diversos gêneros, como poesia, crônicas, contos, os mais diversos assuntos, mas sempre somos condicionados a ler mais do mesmo que sempre lemos.
    Abraços.

    Minhas Impressões

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