Entre o mundo e eu: um negro consciente é um negro triste…e com medo

O ato de enegrecer traz ambiguidades absurdas. Enegrece-se quem toma consciência e enxerga a si mesmo como negro e seu lugar na sociedade. Isso acontece mais cedo ou mais tarde na vida de um negro. Geralmente o mundo joga isso na cara. Quando você começa a se perceber diferente do amiguinho branco e que não tem os mesmos privilégios, o mundo te abocanha. Sair da bolha do mito da democracia racial te faz enxergar tudo tão claramente que ás vezes te deixa exausta, parece que a necessidade de resistir é eterna e que esse peso nunca vai acabar. Ao mesmo tempo que se abraça toda a diferença e se enxerga tão valioso e belo quanto qualquer um, o medo cresce.

Você teme pelo seu irmão, pelo seu primo, pelo seu pai, pelo seu namorado. Num país onde um jovem negro tem 3 vezes mais chance de ser assassinado não poderia ser diferente. E ser ciente disso e do quanto as pessoas que você ama são sujeitas a tantas humilhações no dia-a-dia, é absurdamente entristecedor. Isso porque vivemos em um Brasil dos sonhos onde todos se amam apesar da cor/raça. A tal da democracia racial que paira sobre nós como se fosse algo real não passa de uma ilusão para enganar pessoas que foram criadas para serem brancas (isto é, serem reconhecidas como gente) e tirar o peso das costas delas de toda a atrocidade que acontece pelo mundo.

entre o mundo e eu ta-nehisi coates resenha

Ta-Nehisi Coates, jornalista norte-americano, nascido e criado em Baltimore, relembra sua infância questionando e discutindo todas as tensões raciais presentes nos Estados Unidos. Lá, mesmo que essa aura ilusória da miscigenação não cegue tanto quanto no Brasil, o corpo negro ainda é ameaçado, encarcerado e alvejado. É no formato de carta para seu filho de 15 anos que o autor nos relata como era a vida do negro nos EUA desde quando nasceu, há 40 anos atrás na periferia. E como ser filho de um ex-Pantera Negra e viver onde viveu o transformou numa pessoa com medo e desconfiada.

Tentar ficar dentro dos padrões (estéticos e comportamentais), ser sempre duas, três, quatro vezes melhor e nunca fazer nada suspeito são ações empíricas de uma pessoa negra que vive em algum lugar dominado pelo sentimento de que aquele corpo preto não pertence e não deveria estar ali. Partindo disso e da tentativa de consolar e preparar mais seu filho Samori para o mundo, Ta-Nehisi Coates fala sobre diversos casos de violência policial contra negros nos EUA e de como era sua relação com o pai e com o filho. Fala de como muitas vezes a relação pai e filho é quase obsessiva devido ao medo que o pai sente toda vez que seu filho sai na rua. Fala de como é enfraquecedor esse medo de que há perigo em cada esquina que virar.

O jornalista tem uma linguagem forte de denúncia e uma certa tristeza. Certas vezes dá para sentir um ressentimento pela falta de fé em um deus. Por não ver um motivo, além do cosmopolitismo forjado e fracassado e de uma história injusta de inferioridade, e não ter um deus para reconfortar. O seu relato da infância e adolescência ao filho é sobre a violência em casa como alerta (ou eu bato nele, ou bate a polícia); nas ruas da periferia, onde não se perdoa vacilos; nas escolas que não inspiram e não permitem sonhos. E, como diz Antonio Sergio Alfredo Guimarães na introdução, sobre esse saber esquizofrênico.

Finalmente em Howard, uma universidade negra de elite conhecida como Meca, chamada assim por irradiar o saber entre os negros e onde se aprende a irmandade do corpo negro, o autor encontra a liberdade. O poder negro aqui não esquece o ódio ao exterminador e luta contra o Sonho – o Sonho americano, “american dream”; citado muitas vezes e apontado como culpado na história. Aqui temos uma vista do Sonho pelos de baixo. Sonho que serviu para muitos brancos ou não que hoje vivem em seus condomínios suburbanos, mas não para quem foi racializado, teve o corpo marcado pela fisionomia e pela cor.

Porém, apesar do sucesso do livro e de seu primeiro lugar na lista do The New York Times, segundo Antonio Sergio, este não foi um livro unanimemente aceito, até pela comunidade negra norte-americana, mesmo com a boa recepção de Toni Morisson. Ta-Nehisi Coates foi acusado de se distanciar do ativismo, culpabilizado por apoiar Obama e de ocupar espaço demais na mídia branca. Eu esperava um livro que agregasse bem mais do que agregou no fim, mas ficou o aprendizado sobre a sociedade americana e toda a emoção passada nessas 150 páginas.

O livro está longe de ter foco nas pessoas brancas e suas culpas. Aqui temos como ser negro e ter consciência dessa negritude molda o pensar e o agir. Coates ensina para seu filho que, diferente de seus amigos brancos (e dos policiais) ele é considerado responsável pelas suas ações e pela integridade de seu corpo. Entre o mundo e eu é uma conversa não só de pai para filho, mas de autor e leitor e, nesse caso para mim, de negro para negra. Li os relatos de lá com sentimento pelos dos daqui, dos nossos Carandirus, dos nossos Costa Barros, Rocinhas etc.


O livro foi publicado no Brasil pela Editora Objetiva e você pode ler um trecho aqui e comprar o ebook aqui e o livro físico aqui.  (Aliás, amei a diagramação do livro. Folha e fontes agradáveis para ler.)


Pesquisando sobre o tema, vi uma palestra do TED com Clint Smith: Como criar um filho Negro na América?

Smith aborda o mesmo que Ta-Nehisi Coates no livro e é bem legal e emocionante.


Ta-Nehisi Coates  está tão bem cotado que foi chamado para ser roteirista do quadrinho Pantera Negra, da Marvel. Eu li as duas edições que saíram e digo: tá muito legal (talvez fale aqui sobre). Depois de ter visto o Pantera em Capitão América: Guerra Civil, eu quero ler e ver tudo relacionado. É um personagem muito interessante J


Espero que tenham gostado. Vale a pena a leitura!

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