Do que é feito uma garota: Sobre a dor e a delícia de se descobrir

Ninguém nasce dona de si, com a auto estima lá em cima. O jeito com que lidamos com nosso corpo, nossa beleza em geral, é construído socialmente ao longo dos tempos. Tanto é que a cada década (ou até mais rápido, visto a instantaneidade que as coisas tem ocorrido) o padrão de beleza muda, assim como a profissão do momento, a moda, o ritmo que bomba nas boates etc.

As mais afetadas, obviamente, são as mulheres. Toda a ditadura comportamental e estética cai sobre nós, por isso é tão comum vermos adolescentes com problemas (psicológicos, alimentares…) Acredito que quase todo mundo já passou pela angústia de se achar feia, não se encaixar, o cabelo não estar como na revista (cabelo crespo? vejo raramente), o corpo nem se fala…

É divertido quando você já é mais velha e passou por toda aquela crise, já desconstruiu e abriu os olhos para tanta coisa, e encontra um livro que narra e descreve todo esse momento de passado (não sou super evoluída não, só tenho mais auto confiança na minha aparência hoje, com alguns deslizes que eu passo por cima). Se tiver passando por isso ainda, é mais delicioso ainda, apesar de crítico, porque você se identifica e sabe que tem alguém ali que entende o que vc está passando (e ainda por cima, quebra uns padrõezinhos dentro de você que você nem sente).

livro_do que é feita uma garota caitlin moran resenha

O livro How to Build a Girl, da Caitlin Moran (comprei em inglês em uma promoção da Amazon sem saber da publicação por aqui meses depois. Mas foi publicado no Brasil como Do que é feita uma garota, pela Companhia das Letras), trata exatamente de uma adolescente em crise. Johanna, a adolescente, vive numa cidade interiorana da Inglaterra dos anos 90, é pobre, tem 7 irmãos, pais não convencionais, gorda, nunca beijou, virgem e se masturba o tempo todo. Se tá difícil para você, imagina para ela.

“Nossa protagonista decide então se reinventar como Dolly Wilde — heroína gótica, loquaz e Aventureira do Sexo, que salvará a família da pobreza com sua literatura. Aos 16 anos, ela está fumando, bebendo, trabalhando para um fanzine de música, escrevendo cartas pornográficas para rock stars, transando com todo tipo de homem e ganhando por cada palavra que escreve para destruir uma banda.”(Skoob). E por se passar na década de 90 e no meio musical, tem muita referência e citações de bandas que dão um ar de nostalgia (eu nasci em 1990 e não tenho essa lembrança toda porque não e porque eu não era do rock. Desculpa)

Por ser em primeira pessoa, entramos mais afundo ainda nos pensamentos de Dolly/Johanna. Ela é intensa, não é adorável e é muito real.  Ela usa o sexo como válvula de escape – vejo que muito desse “sexo com qualquer um” vai de achar que não merece algo mais, digo por experiência própria. Sem perspectiva com o futuro ela se machuca, mas isso não dura muito tempo porque quer fugir da vida chata e de si mesma.

Acredito que o público certo para o livro seria adolescentes da mesma faixa etária, justamente pelo que falei antes: é maravilhoso quando alguém te entende. Mesmo que seja bem louco em alguns pontos, ele conversa com os problemas da idade. É aquilo do livro certo para o momento certo, sabe? Eu senti isso com Como ser mulher, da mesma autora, por estar buscando informações e estar em formação, por ter passado por muita coisa que ela escreveu ali. E ainda ser divertido, porque a Caitlin Moran é divertida e satiriza muitas coisas ditas sérias. No final fica a lição de como é importante contar sua própria história, principalmente para as mulheres.

“Ouvir uma mulher cantar sobre si mesma – mais do que homem cantando sobre mulheres – faz tudo parecer maravilhosamente claro e possível.

Toda a minha vida, eu pensei que se eu não pudesse dizer nada que garotos achassem interessante, eu deveria ficar quieta. Mas agora eu percebi que existia outro papel, metade de um mundo invisibilizado – garotas – com que eu poderia falar no lugar. Toda uma outra metade silenciada e frustrada, só esperando para ser dado um pequeno sinal e seus mundos explodiriam em palavras e músicas e ações e alívio, choros eufóricos de “eu também! Eu sinto isso também” (Tradução livre de um trecho do livro)

Nessa luta de autoconhecimento quem você acha que venceu? Dolly ou Johanna?


Onde encontrar o livro:

Do que é feito uma garota (em português)

How to Build a Girl (em inglês)

Comprando pelos links você ajuda o blog a crescer

 

Curiosidade: Achei essa resenha perdida na minha gaveta, escrita em um papel e datada em junho de 2015. Não sei porque nunca foi publicada, mas a sensação de encontrá-la foi boa 🙂 Vamos, além de ler, escrever mais?

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  1. Pingback: Como montar um caderno de leituras | Livro do dia

  2. A Letra Escargot

    “VAMOS, ALÉM DE LER, ESCREVER MAIS?”
    Eu tenho feito essa pergunta recentemente: escrever ou ler, eis a questão.
    Abri um blog, mas não pretendo colocar todas as minhas leituras lá… só os livros que me deixarem com muita vontade de falar sobre eles. Vai ser um blog lento, como o próprio nome, pra não se acompanhar (kkkk). Te convido pra ler a resenha entrelaçada que fiz de “Kindred” com “The Victorian Chaise Longue”:

    http://aletraescargot.blogspot.com.br/2016/05/duas-viagens-no-tempo.html

    Enzo

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